Natália Viana – Ag. Pública
Em dias de jogo do Brasil, são mais de 18 milhões de dispositivos conectados à CazéTV, que hoje já passa de 35 milhões de seguidores no Youtube. Enquanto narram a partida, os apresentadores entoam as “odds”, pedem para a gente ir participar de uma aposta, propalam como a oportunidade é boa.
O Ministério da Justiça abriu uma investigação e o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) considerou propaganda abusiva, sugerindo a suspensão das propagandas das empresas KTO, Betnacional e Bet365 no canal. Só então, a CazéTV resolveu mudar e deixar os anúncios apenas para os intervalos (que são muitos nesta Copa, diga-se).
Fim de papo? Não. Este é apenas o começo do papo. A discussão sobre a onipresença das bets em propagandas para todo lado deveria virar o grande legado desta Copa do Mundo.
A parcela de brasileiros que enviou dinheiro para bets durante a Copa do Mundo saltou para 34,8% da população, triplicando os 11% registrados em maio, segundo levantamento da fintech Klavi, com base em dados do Open Finance.
A Pública apurou como o dinheiro das bets e um aporte milionário da XP ajudaram a erguer o império lucrativo da CazéTV. Mas não são só eles que lucram com as apostas. Canais da TV aberta também – afinal, como mostrei há quase um ano, a Globo é sócia da MGM Resorts International em uma casa de apostas online, a Bet MGM. O SBT tem sua própria Bet, a Bet do Milhão. E a Band lançou a BandBet. Além disso, todas elas se esbaldam em propagandas de bets antes e depois dos jogos.
Sites noticiosos como Brasil 247, Terra, Metrópoles, Poder360 e CNN também ganharam dinheiro com anúncios de casas de apostas. E eu posso dizer tranquilamente: quem não o fez, é porque resistiu muito.
O jornalismo, esta atividade tão atacada, tem como único esteio a responsabilidade com a informação que publica. Se os sites jornalísticos gastam as horas dos seus repórteres para denunciar a epidemia de bets, é um absoluto contra senso neutralizar este trabalho suado com propagandas coloridas e chamativas convocando o leitor a “apostar já”.
As empresas de apostas online não geram absolutamente nenhum valor social. Elas drenam o dinheiro do bolso dos brasileiros e empurram os mais vulneráveis para o abismo. As famílias estão quebrando, o endividamento explodiu e, hoje, quem resiste a esse descalabro é apenas a sociedade civil e o jornalismo de fato comprometido com a realidade.
É por isso que a Pública colocou de pé a série “Jogo Perigoso: O Brasil das Bets”. Nossos repórteres foram investigar o que ninguém quer mostrar: como esse mercado mantém o Congresso nas mãos, quais são as falhas gritantes da regulação e como isso destrói vidas lá na ponta.
Esta investigação foi possível porque ainda existe jornalismo que não aceita dinheiro de bets. Nossas reportagens foram 100% financiadas pelos nossos leitores no ano passado. Enquanto os outros lucram com as bets, nós escolhemos combatê-las com a nossa melhor arma: o jornalismo investigativo independente.
Se você também concorda que investigar o lobby das bets é um serviço essencial para o país, não seja apenas um espectador. Apoie a Pública e garanta que ninguém consiga engolir a nossa independência.
