O existencialismo que habita em mim

Às vezes, a vida é um tanto irracional. Nossas paixões naturais, difíceis de explicá-las, fazem-nos escravos. Dependendo do grau de seriedade e maturidade de cada ser, esse sofrimento é ampliado. O mundo a nossa volta e nossa compreensão sobre os fenômenos sociais, ativa nossos princípios de cidadania. Afora esses, outros valores subjazem. São valores, a rigor, eivados de subjetividade, como a ética decorrente da moral, conquanto o ethos é a ciência dessa.
Valores como bondades, amabilidades, ódios, rancores, tristezas, frustrações e inseguranças também habitam nossas almas e acabam sendo uma espécie de vetor de nossas vidas em nossas caminhadas terrestres.
Várias vezes entro em crise com meus valores, mas prefiro guardá-los nos porões do meu consciente racionalíssimo ser. Dói-me o florescimento da mendicância humana e quando vejo tudo errado a minha frente, sinto-me fraco e impotente. Prefiro chorar sozinho, sufocando o pranto por debaixo dos cobertores. A dor que invade minha alma, muitas vezes, é abismal. Pessoas como eu tendem a sofrer mais que as demais. Faltam-me crenças, outros valores. O mundo e a lógica da vida nos limites puros da razão, é um fardo difícil de ser carregado.
O ateu e o agnóstico, por não compartilharem de crenças subjacentes a moral religiosa, tendem a mergulhar num mundo estranho, sem sonhos, sem fantasias e sem esperanças. O tecido social tem um limite e as convenções da vida em sociedade obedecem ritos que se casam na conjunção de interesses entre a ética afeta a cidadania e a ética derivada de valores religiosos.
A mim, falta a ética espiritual e religiosa e o mundo é um vazio imenso quando os outros valores entram em crise. Hoje é um dia desses bem atípicos em minha vida. Estou em profunda crise. Mergulhado numa dor sem precedentes, minha alma é um caos. Tudo começou ontem quando decidi reler meu último livro. A política, que é o que mais amo, cada vez mais se apresenta podre e feita por gente cada vez mais tola e imbecil. Minha opção de escrever sobre como vejo o outro lado disso, abre-me fendas espirituais profundas. É tudo podre.
A lógica das convenções discursivas é podre, os jogos, técnicas, macetes, articulações, falas, tudo é eivado de podridão. Aí passo a questionar-me profundamente. Até onde eu não sou totalmente podre na medida em me seduzo tanto por tudo isso?
Em política, tudo é mentira ou quase tudo. Não existe decência. Ninguém fala a verdade, crassa o cinismo. Fingimos que aceitamos a mentira como verdade e tornamo-nos cúmplices da mentira e da falsidade.
Meu último livro versou sobre essas mentiras, daí porque afirmei que era um livro amoral. Com ele, veio uma crise enorme sobre meus ombros. Que bom que eu encontrasse um refúgio para minha alma. Que maldição eu carrego por meu ser não aceitar um pouquinho de abstração, seja do terreiro, da igreja, do templo, em suma, seja da manifestação que for.
Psicalizando-me, o que faço diariamente, vejo a contradição entre a herança de uma moral cristã e judaica que habita minha alma e a inquietação de não acreditar em praticamente nada que soe religião. Se alguém tiver alguma fórmula, por favor, mande-a para mim. Do contrário, sigo. Sigo tateando espaços vazios, ocos, inconclusos, confusos e misteriosos, como é o próprio destino das almas.

 

Despolitizações e mentiras

Um dos discursos mais cínicos na política é esse que propugna pela não politização das atividades estudantis, especialmente pela atividade universitária.

Tudo que diz respeito à vida universitária tem a ver com a política e com os rumos políticos do país. Começa com o ENEM, PROUNI, ensino público e/ou privado, cotas raciais e sociais, passando pelo preço do caderno, do livro, da caneta, do computador, da internet grátis ou não…em suma, tudo que envolve a vida dos estudantes dentro de uma universidade é política, sim.

Peguemos um ponto apenas do debate, a questão do ensino público e gratuito. Quem faz esse debate são os partidos políticos. Os estudantes que não quiserem perder o bonde da história, precisam fazer esse debate, precisam debater o que querem para o seu país e o que querem do seu país.

Se de um lado, toda a questão estrutural do ensino é fortemente política, também o é em termos de conteúdo, seja em história, seja no direito, seja nas letras. Alguém duvida que ao cotejar a linha francesa da análise do discurso com a linha americana não estamos diante de duas posições bem ideológicas? Viva Althusser e Noam Chomsky! Alguém duvida que o conteúdo de um ensinamento de história não esteja eivado de visões político/ideológicas? Ou alguém imagina que os professores de Direito ao omitirem as verdadeiras vertentes epistemológicas do Direito, ao fazerem apologia da lei pura e crua não estão fazendo apologia do establishment? E por que os alunos cricri vão além buscando a teoria dialética do Direito?

Os professores de engenharia ao defenderem os transgênicos como uma verdade absoluta não estão adotando uma posição política? E os que estão contra também estão adotando uma posição política.

O ônibus que nos leva até a universidade também é uma questão política, o custo da passagem, o salário do motorista, a capacidade de usuários, o custo do combustível do nosso carro, o valor dos tributos inseridos no custo da gasolina, o preço de um tênis, a carga tributária desse tênis, a internet que temos em casa, tudo, tudo, tudo, são questões vivamente políticas.

A URI, situada nesse debate, volta e meio é assaltada por alguns supostos moralistas, puritanos babacas que não sabem o que estão dizendo, acusam as pessoas de fazerem política dentro da universidade. É claro que é preciso haver um limite na atividade partidária, mas ninguém segura o debate político e esse é essencialmente partidário. A gente camufla, dissimula, diz uma coisa e faz outra, mas no fundo, no fundo, tudo é político. Por fim, reflitamos com Bertold Brechet sobre o analfabeto político:

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.

Tem outras coisas que eu conto outro dia só para ver à reação dos que se apropriam da história forjada pela ditadura e falsificam os fatos para ajustá-los aos seus interesses nos dias atuais. Eles sabem que eu existindo, o muro será sempre difícil de ser transposto.

“Se hoje eu sou a estrela, amanhã já se apagou, se hoje eu te odeio, amanhã lhe tenho amor”

Eu não escrevo para idiotas, que raciocinam apenas em cima do óbvio. Iniciei com um jornal digital no ano 2.000, portanto, pioneiríssimo na internet. Quem conheçe minha história de vida, sabe que as primeiras crônicas no jornal Folha da Tarde, POA, datam de 1980. E daí em diante, nunca mais parei. Afora 6 livros, tenho milhares de artigos escritos ao longo dos últimos 30 anos. EM TEMPO: artigos não são postagens breves como essas que faço no blog. Tem gente que descobriu meu blog na eleição da URI e agora, perturbados, ficam me atacando e querendo me julgar a partir de sua visão de mundo. Pobre gente.

Bem, meu blog é pessoal, não peço para ninguém lê-lo e não peço opiniões. Lê, quem quer.

Já disse que não sou estático, que meu coração é judeu apátrida, adoro mudanças. Sou avesso ao que é como está, hoje tenho uma posição, amanhã, posso ter outra. E aí?Isso é problema meu. Mecanicistas que só veem o mal em contraposição ao bem, jamais vão poder ler meu blog, sob pena de viverem em permanente crise. O ideal é que nem abram mais meu blog. É tão simples. Se eu quiser ser um ateu, que acredita em Deus, qual é o problema? Será que preciso buscar Zélia Gattai? Se eu quiser ser um evangélico, qual é o problema?

Mas não foi o Raul Seixas quem disse isso:

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Há, um detalhe para aquela criança perturbada, eu escrevo sobre assuntos que domino. E mais: se vcs duvidarem, me chamem para um debate sobre EUGENIA, já que fui provocado.

Quanto as criticas ao meu blog?

Será que eu tenho o direito de decidir ou não? Se eu não quero receber comentários, o problema é meu. Sigam me odiando, vcs serão mais inteligentes agredindo o que não conhecem.

Sobre Pesquisas e Pesquisas eleitorais: anatomia dos erros ou tentativa de indução do eleitorado?

Na medida em que se aproximam as eleições, surgem também os debates sobre enquetes e pesquisas eleitorais. Vou fazer algumas observações, oferecer um modelo de metodologia aos interessados.
Pesquisas prévias, a rigor, não querem dizer nada, basta lembrarmos a pesquisa CEPA-UFRGS, em 2001, um ano antes do pleito, onde Britto e Tarso apareciam com 44% e 42%, respectivamente, e Rigotto, do PMDB, aparecia como apenas 4%. O resultado todos já sabem, Rigotto venceu e Britto não alcançou 13% dos votos. Ademais, as pesquisas são profundamente marcadas por erros e estes são bem conhecidos de quem acompanha pesquisas, cito o caso Marroni x Anselmo em Pelotas, aquele fatídico erro do CPCP que colocava Britto, Vilela e Carlos Araújo na frente de Olívio Dutra e, ao escrutinar as urnas, Olívio venceu todos juntos. Temos um caso célebre, em Fortaleza, onde Maria Luíza Fontenelle, do PT, onde tanto o GALLUP quanto o IBOPE a colocavam em último lugar e ela venceu o pleito a despeito de todas as projeções erradas. O próprio governador Eduardo Leite – por um bom tempo – teve 4% nas pesquisas. O resultado, todos sabem. Em suma, são inúmeros os casos de erros e que demonstram que o valor da pesquisa, enquanto indutor de tendência, é questionável.
O método ideal para a análise científica de auscultar uma dada população seria interrogar a todos, isto é, atingir a amostragem do chamado universo. Sendo impraticável tal sistema, recorre-se a uma técnica chamada de investigação parcial. Seleciona-se um segmento representativo do eleitorado através de amostragens casuais, que garante iguais probabilidades de escolha a todos os votantes, sendo que a sorte e o acaso indicam os que vão compor a amostragem.
A formação do grupo de controle que reflita exatamente na proporção devida das tendências de um eleitorado é tarefa técnica extremamente complicada, razão pela qual o princípio da amostragem casual deve corresponder ao sistema de amostragem estratificada tanto quanto possível. Se tal não for possível, deve-se incluir pesos de alguns fatores variáveis e esses fatores devem refletir-se na amostra, por exemplo, situação sócioeconômica, sexo, idade, escolaridade, religião, entre outros. Uma amostra típica deve compreender distribuição adequada que leve em consideração o seguinte: 1 – zona rural e urbana na mesma proporção dos dados oficiais do censo do IBGE; 2 – grupos de diversas idades; 3 – pessoas dos dois sexos; 4 – eleitores de diversos níveis econômicos, a saber, alto, médio e baixo e, em qualquer dos casos, é imperativo demonstrar a porção do eleitorado a ser inquirido o critério de proporcionalidade. Assim sendo, as amostragens de áreas e de quotas são os dois processos mais comuns.
Como fazer uma pesquisa eleitoral correta em Santiago:
200 amostras, sendo 52% de mulheres e 48% de homens. Dessas, colher entre 11% meio rural, igualmente estratificado pelo critério de sexo. A seguir dividir as amostras por idade, de 16 a 20 anos, de 21 a 25, de 26 a 33, de 34 a 50 anos, e acima de 50. Para se obter o percentual aproximado da investigação se busca proporcionalidade nos dados oficiais, por exemplo, se 56% da população tem acima de 50 anos, usa-se o percentual de 56% para balizar a proporcionalidade das amostras por idade e assim sucessivamente. Acerca da instrução, que também deverá ser estratificada em razões proporcionais, precisa-se antes balizar as amostras entre os níveis de ensino, sendo o primário, fundamental, médio, superior incompleto e completo e variância de 12% com pós-graduação em qualquer nível. Por fim, quanto ao nível econômico, procura-se balizar por níveis de renda, por exemplo, até um SM, acima de um e até dois, acima de dois e até três, acima de três e até seis e acima de seis e até dez e acima de dez. Nesses casos, o intervalo de confiança será de 90% e a margem de erro possível e admissível 3% para mais ou para menos.
As sucessivas auscultações feitas em Santiago padecem de rigor científico. Entretanto, a melhor saída quando não se dominam tais processos metodológicos, é fazer uma colheita de amostras por quantidade, ou seja, delimitar algo em torno de 1000 pessoas, dividi-las por sexo, sempre obedecendo o percentual 52% mulheres e 48% homens. Nessa hipótese, a quantidade tentará se sobrepor à qualidade, resultando daí uma tendência aceitável.

Por que escrevo: por que vivo?

O que dizer e o que pensar de uma quarta-feira? Todos se recolhem cedo, o movimento logo acaba e parece um ritual coletivo comunitário de todos dormirem juntos.

A cidade fica estranha, às ruas vazias e a única sentença é a certeza do silêncio e que logo mais, ao clarear do dia, tudo recomeça nesse rotina amorfa. Mas todos guardam doses de esperanças e ilusões, cultuam sonhos e correm atrás deles. Outras pessoas nem tanto. Vão em busca de um destino incerto e de um calendário patético que registra os traços de uma vida já sem sentido.

Pelas filas médicas e postos ambulatoriais crassa a dor e a melhor busca de esperança reside na magia de alguma religião. Na fila do desemprego, onde arde a catinga nauseante do desespero, um novo dia é sempre um sinônimo de recomeço, visto como uma pontinha de luz numa promessa de fé.

Hoje preferi curtir a madrugada ao longo e penetrar nela sem medo das malidecências de um passado em que vivia intensamente o pavor do pânico noturno. Caminhei pelas ruas, olhei cada detalhe da arquitetura das casas, curti o vôo rasante dos morcegos e decifrei o enigma morto no horizonte pálido que não fala, mas que emite uma sentença fatal.

A praça onde sentei-me décadas a fio observando céus, nuvens e prelúdios de tempestades está deformada pela engenharia necessária de pistas de skates. Emerge uma nova paisagem urbana, um redesenho na acomodação comercial, na semeadura dos sonhos da igreja universal e na desfiguração de uma arquitetura que teve arte, traços leves e graça. Agora, é só compacto bruto de um processo embrutecedor.

O núcleo de Santiago onde impera a náusea, a semeadura da insensatez, está inerte, resistindo ao tempo e dando assas a boçalidades e complôs. Lá está o sindicato do atraso, “reconstruído” sobre heranças de um processo decadente, mas, mesmo assim, resistente, colossal e redefinido, reestilizado, reinventado. Patética heresia.

Gosto, depois de deixar o centro, estacionar o carro ao longo da rodovia que corta nossa cidade, margeando o fundo da artilharia. Afora pensar no cemitério de cavalos e na linha de tiros voltada para dentro da cidade, artes que povoaram minha imaginação inventiva de criança, tenho uma vista contemplativa do núcleo pobre, carente e indigno da cidade. A paisagem não é a mesma. A simplicidade dos traços e da lâmpada posta em frente às casas, os gritos histéricos dos cães, a poeira e o sereno que cai parece mais penetrar no abismo das almas que propriamente dito na telha das casas. Tudo é um cenário de dois mundos, duas realidades e duas construções de sonhos.

Adentro vila Jardim dos Eucaliptos em direção a vila Daer. Um povoado habitacional de expressão que cresceu e tomou um vulto avolumado. As águas sujas de esgotos correm e ouço seu ruído ante o silêncio que reina, cortado apenas por latidos e pelo rangido -ao longo- de uma bicicleta. Olho e vejo um senhor magro, pedalando ofegante. Parece carregar ferramentas, numa caixinha, na garupa. Ele passa e eu fico pensando nele. Para onde estará indo. Ainda não são 5 horas. Deve ter levantado por volta das 4 e pouco. Penso que talvez ele seja feliz. Talvez não tenha consciência da indignidade de sua vida, talvez apenas marche em busca de uma rotina que não lhe afeta sonhos e nem perturba sua existência.

Penso como teria sido diferente minha vida se não tivesse escolhido esse caminho de tentar entender as coisas e decifrar os pactos sociais. Quão bom seria ter sido eu um operário da construção civil? Não sei, nunca saberei. A única coisa que sei com grau relativo de certeza é que sou um grande curioso, gosto de ver as coisas e depois escrever, escrever e escrever.