Ghost writer de si mesmo e o absurdo camusiano

*JULIO PRATES

Na solidão desta noite, notei a deformação do meu rosto; foram as constantes cirurgias na minha alma; aos poucos, os pedaços foram sendo extirpados; restou um rosto amorfo.

Tomei um copo de água gelada com limão e comecei a escrever mais um capítulo de uma história de carrocinhas de latas, puxadas por burrinhos, que saíam em filas do matadouro municipal. Carregavam as buchadas dos animais abatidos e tudo era vendido nas vilas pobres. Delas, escorriam sangue e os cachorros famintos saíam lambendo a terra em busca do gosto árduo e do magnífico atrativo derivado dos restos e fragmentos de carnes ensanguentadas.

Nenhum ritual lindo, quando as carrocinhas passavam, os pobres saíam de suas casas para comprar os restos. Era a lógica do comércio dos bucheiros, como eram conhecidos aqueles trabalhadores abnegados. Falta-me estabilidade emocional, sofro muito longe de minha filha, e minha produção não rende o que deveria ser. Mas aos poucos vou seguindo um roteiro, o contexto, à época, a região, as classes sociais, os bucheiros, a ascensão de alguns e queda de outros, os porcos engordados no lixão da cidade, a estética de um suíno engolindo um absorvente, um menino catando os restos de um ursinho de pelúcia, o comércio da carne suína e fartura dos açougues, uma cidade tomada de meningite e nenhum Nostradamus sanitarista.

Depois do roteiro pronto, surgiu uma psicóloga na minha vida. Ela pediu-me para ser parte do romance; primeiro, não vi como, depois entendi ser possível a construção de um diálogo de um pai atormentado, reli Camus sobre os juízes e juízas, médicos e médicas e a disputa pela condição deísta…a psiquiatria, a razão, a loucura, o amor, os ciúmes, os dramas familiares, a guerra surda da alienação parental, a boçalidade jurídica fez-me voltar a reler A CASA SOTURNA, de Charles Dickens, uma dura crítica e sátira concomitantes ao sistema judiciário inglês. Ela não me entendia pelos olhos da antipsiquiatria, mas desde que ela me conheceu sempre soube de minha veneração por Cooper e Laing, pelo Homem Medíocre de José Ingenieros até a História da Loucura e o retorno a Foucault.

Pensei que Veríssimo esperava-se para expor teses num debate irracional, que culpa tenho eu se o adoro e estudo um concluído autor assumindo um papel de ghost writer de si mesmo (sempre o absurdo camusiano me perseguindo) e mostrando a lógica médica operante dos sistemas, a necessidade dos ajustados e a exclusão dos desajustados, da clínica à prisão. O tratamento fica comprometido, havia tanta razão na loucura que tudo virou num caso afetivo. É a identidade dos opostos. Não sei como fechar a História. O pessoal da Editora foi a loucura comigo, sempre a guerra de arquétipos. Eu sempre sei homenagear quem merece.


*Autor de 6 livros, jornalista nacional com registro no MtB nº 11.175, Registro Internacional de jornalista nº 908 225, Sociólogo 1983/1987, 99/00, Advogado 1984/2004 e Teólogo 2021/2024.

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