A primeira revolta islâmica no Brasil: 1835

Dias atrás estava num grupo de estudos com o pessoal da UFSM e fui surpreendido com a pergunta se eu sabia sobre a primeira revolta islâmica em nosso país.

Na verdade, é um dos assuntos que eu mais domino e citei uma longa viagem de Cruz Alta a Porto Alegre, com o advogado Carlos Orling, ocasião em dissecamos a obra A Revolta dos Malês, do professor Décio Freitas, ocasião em que ficam expostas, para o meio acadêmico brasileiro, a influência pouco conhecida dos pressupostos do islamismo no meio dos nossos negros escravos.

A rigor, foi em janeiro de 1835, na Bahia, um grupo aproximadmente  de 1500 negros, liderados pelos muçulmanos Pai Inácio, Manuel Calafate, Aprígio,  dentre outros, armou-se uma conspiração com o objetivo de libertar seus companheiros islâmicos, matar brancos e mulatos traidores.

Creio que é um grave erro em nossa historiografia em não citar a presença do islamismo no Brasil e – pior ainda – em negar que tivemos revoltas vivamente islâmicas em nossa história recente, menos de 200 anos atrás.

De um lado, tive sorte pois gostava muito do historiador Décio Freitas e, de outro, louvo o bolivros, então líder do PC do B, que foi quem me falou pela primeira vez acerca de uma revolta islâmica em nosso país. Bolivar era casado com a deputada Cony e era apenas um livreiro, mas um livreiro raro, com amplos conhecimentos das ciências sociais e humanas. Ele estava sempre no gabinete do Bisol, sempre cheio de livros e sempre com uma história subjacente. Pois foi assim, nesse contexto, que soube da influência do islamismo em nossa história, do contrário, seria um mero alienado. Bolivar contou-me sobre essa revolta islâmica no ano de 1984, aliás, foi quando soube da influência do islamismo em revoltas regionais. Foi ali que percebi o furo da historiografia oficial.

Décio  Freitas narrava as duas visões políticas que predominavam no meio dos negros escravos. Uma dócil, onde os negros fugiam, e queriam dançar ao redor do fogo e não alimentavam nenhum tipo de vingança. Outra, eram dos negros que fugiam e voltavam para matar os brancos, suas esposas e filhos/filhas, assim como os mulatos que apoiavam a escravidão.

Soube que os teóricos portugeses quebravam a cabeça tentando entender os sentimentos que havia na escravidão, pois eram dois campos bem opostos e totalmente antagônicos. Onde residia o sentimento de vingança e vontade de matar os brancos e suas famílias?

A resposta é quase exata, bastava localizar os negros escravos que eram oriundos de países islâmicos e islamizados; basta recordamos que o islã foi trazido ao Brasil no final do século XVIII pelos escravos oriundos das regiões da África. A influência islâmica na África começou no século VII com a invasão pelos árabes do norte do continente. Essa é uma herança muito fecunda do islamismo em nosso caldeirão cultural e não temos como negar, até hoje, essas raízes, embora pouco estudadas, e mais grave: um fato desconhecido do nosso povo e do nosso meio acadêmico.

De certa forma, existem erros nos dois lados da história, inclusive dos islâmicos atuais que não procuram contextualizar suas raízes históricas.

Contudo, não deixa de ser promissor a reflexão acerca dessas raízes em nossa história, onde certamente existem herdeiros e, por extensão, raízes históricas.

Essa é minha contribuição para o final de semana.