Embora sem comprovação científica, transmissão por poeira pode acontecer

FOLHA DE SÃO PAULO

O coronavírus pode ser propagado pela poeira? Ao manusear um material que levante poeira, posso ser infectado pelo vírus?

Ainda não há estudos científicos que apontem que a infecção por coronavírus possa ocorrer por meio da poeira ou da poluição em geral, afirma a consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia e professora da Unicamp Raquel Stucchi.

Apesar disso, a recomendação é ter cuidado diante da incerteza. A pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, lembra que o vírus pode se propagar pelo ar por até 3 horas sob forma de aerossol, o que compreende partículas líquidas e sólidas, o que incluiria a poeira.

“Quanto mais pesadas as partículas, mais facilmente elas caem e se depositam nas superfícies,
onde as pessoas podem colocar as mãos”, diz, acrescentando que a situação é mais preocupante em ambientes fechados e com muita gente.

A professora do departamento de microbiologia da UFMG Viviane Alves, que produz material informativo sobre o coronavírus nas redes sociais, afirma que, dependendo do tempo que a poeira estiver no chão, havendo partículas respiratórias ali pode, sim, haver risco de infecção.

Pasternak pondera que estudos foram feitos em ambientes os hospitalares, que são muito contaminados, e que não é possível extrapolar que essa contaminação ocorra da mesma forma em ambientes domésticos. Por cautela, ela recomenda dar preferência a panos umedecidos para fazer a limpeza.

Segundo Alves, se os moradores não retiram calçados e roupas ao retornar da rua para o ambiente doméstico, pode haver risco.

“O ideal aí é usar um aspirador de pó ou passar um pano com água sanitária diluída para fazer a limpeza doméstica”, diz, recomendando também o uso da máscara.

No caso de ambientes externos, a microbiologista orienta evitar varrer. “Espaços públicos não devem ser varridos a não ser com uma proteção muito boa, como de uma máscara N95, mas num momento de pandemia não é aconselhável que isso seja feito”, afirma.

Para Stucchi varrer não tem papel na transmissão, mas a infectologista reforça a recomendação de dar preferência a panos úmidos para fazer a limpeza, devido à baixa umidade na região sudeste nesta época do ano, o que aumenta a ocorrência de problemas respiratórios.

O fundamental, finaliza, é manter a higiene das mãos e redobrar a limpeza dos locais em que estiverem pessoas infectadas pelo novo coronavírus. (Géssica Brandino)

Os receios de que o coronavírus sofra mutação para uma cepa mais perigosa parecem ter sido confirmados, já que uma pesquisa identificou que esta possa ser ainda mais contagiosa do que o vírus SARS-CoV-2.

A nova estirpe, denominada Spike D614G, tem vindo a proliferar na Europa desde meados de fevereiro, tendo-se propagado para se tornar a forma dominante e sendo muito mais contagiosa do que a estirpe original que emergiu em Wuhan, por razões ainda desconhecidas.

“O D614G está aumentando em frequência a uma taxa alarmante, indicando uma vantagem de aptidão em relação à cepa original de Wuhan que permite uma propagação mais rápida”, lê-se na pesquisa publicada na revista científica bioRxiv.

Além disso, se o vírus não desaparecer à medida que o tempo aquece na estação do verão, não haverá nada que o impeça de se transformar em cada vez mais cepas.

Disseminação global

Realizada por uma equipe conjunta americana e britânica liderada pelo Laboratório Nacional de Los Alamos (EUA), a pesquisa foi divulgada como “aviso prévio” a outros cientistas.

A metodologia dos cientistas envolveu a análise computacional de mais de 6.000 sequências de DNA de coronavírus coletadas em todo o mundo.

“Embora a diversidade observada entre as sequências pandêmicas de SARS-CoV-2 seja baixa, sua rápida disseminação global fornece ao vírus uma ampla oportunidade para a seleção natural atuar sobre mutações raras, mas favoráveis”, diz o estudo, adicionando que houve pelo menos 14 mutações diferentes nas sequências de proteínas Spike, apenas uma das quais é a cepa que preocupa todo mundo.

Esta é a cepa da mutação D614G, que provavelmente está causando o aumento da contagiosidade. A mutação afeta as proteínas Spike do lado de fora do vírus, o que permite que o vírus invada as células humanas. Por esse motivo, esses picos até agora têm sido o principal alvo daqueles que tentam projetar vacinas ou medicamentos antivirais para combater o vírus. Atualmente, existem pelo menos 62 vacinas em desenvolvimento, e a maioria delas está focada nas proteínas Spike.

Micrografia eletrônica colorida de uma célula apoptótica (vermelho) infectada com partículas do vírus SARS-COV-2 (amarelo), também conhecido como novo coronavírus, isolado de uma amostra de paciente. Imagem capturada no Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA (NIAID, na sigla em inglês), em Fort Detrick, Maryland

© REUTERS / NIAID / HANDOUTMicrografia eletrônica colorida de uma célula infectada com partículas do SARS-COV-2

Contudo, ainda não há nenhuma sugestão de que a Spike D614G seja mais mortal que o coronavírus original. O grande problema causado por múltiplas formas de vírus tem a ver com imunidade e vacinação.

Além disso, o desenvolvimento de uma vacina depende do design dos anticorpos para corresponder perfeitamente a espigas específicas do lado de fora do vírus. Se estas estiverem mutadas, qualquer vacina potencial pode não ser específica o suficiente para atingir essa cepa, e o recebimento da vacina não forneceria garantia de imunidade.