ARQUIVOS DO CASO EPSTEIN: DANIEL LOPEZ – Inteligência Ltda. Podcast #1756

CASO EPSTEIN é mais grave do que se pode imaginar nos dias atuais, por isso a imprensa trata o assunto com superficialidade e não adentra no real, no campo sério e nem se tocam nos nomes envolvidos.

Não é só banho de sangue, não é só carne humana nos banquetes, é algo muito além de nossa compreensão. Assista a entrevista com o pastor DANIEL LOPEZ, brasileiro, Jornalista, Mestre e Doutor em Linguística pela Universidade Federal Fluminense,  e que é uma voz autônoma, livre e sem freios quanto aos nomes envolvidos.

REFLEXÕES E SABERES

*JULIO PRATES
A vida é um desafio e devemos estar sempre prontos para as jornadas que se apresentam, das coisas simples até as mais complexas. Assim como viver e assim como morrer.
Iniciei a faculdade de sociologia com uma grande definição em minha vida: queria ser professor. A sociologia dos anos 80 não era somente esquerda, havia muita gente de direita, mas tanto esquerda quanto direita era tudo muito moderado, todos se davam bem e não haviam esses conflitos pós telemáticos.
Era bastante jovem, recém chegado em Porto Alegre. Logo, defrontei-me com um dilema horrível. Eu olhava os salários dos jornalistas e via o horror que eram os salários dos professores. Era o início dos anos 80. Essa história vai custar muito para mudar. No curso que eu fazia, tínhamos duas opções, o bacharelado, voltado para Pesquisas, e a licenciatura, voltada para o magistério. Neófito, mal entendia como um professor ganhava tão pouco. Hoje o governo do PT inventou os tais cursos R2, que as pessoas se formam em sociologia em um semestre apenas. Que falta de bom senso. Imaginem essa geração da R2 do PT?  E a regra vale para qualquer curso superior, basta ter o primeiro.
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Também não entendia, como, eu, sem ser jornalista, ganhava tão bem e como os demais colegas também ganhavam muito bem. Não sei bem quem sou eu até hoje, tudo cabe em mim, exceto a medicina e as ciências afins. Enquanto estudava sociologia pura, escolhi dirigir-me para Pesquisas, mas também estudava língua hebraica no Instituto Marc Chagall e francês, na Aliança francesa. No Instituto Judaico Marc Chagall, conheci e firmei grandes amizades. Leonardo Grabois, sobrinho de Maurício Grabois, virou meu grande parceiro e amigo. Leonardo era médico-psiquiatra, longa vivência na França e em Israel. Embora, boa parte da comunidade judaica seja de direita e pró-Netanyahu, embora os vínculos firmados sejam muito fortes até hoje e as amizades persistem.   Grabois formou-se em medicina há muitas décadas, na Universidade Federal do Paraná, figura humana amável e maravilhosa. Criou a dirigiu a Associação Paranaense de Psiquiatria e faleceu dia 23 de dezembro de 2023. Judeu militante e altamente respeitador das demais religiões.
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Grabois adorava girar pelo Vale do Sinos. Ele tinha uma tese sobre a mulher: “Júlio César, mulher é como socialismo, não tendo a ideal, se fica com o quem se tem”. Girar pelo vale dos Sinos era perambular pelos bares de Campo Bom, Novo Hamburgo … nós tínhamos grandes ligações com o sindicato dos sapateiros … sindicatos poderosos, fortes. O Vicente, a quem eu conheci em Campo Bom, modesto operário, acabou sendo eleito Deputado Federal naquela época. Foi em CAMPO BOM que namorei a mulher mais bonita que já conheci na face da terra.
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Mas Grabois gostava de olhar e analisar os comportamentos. Embora médico-psiquiatra, ele tinha uma veia sociológica forte e por alguma razão escolheu-me para ser seu amigo. Quando ainda cursava sociologia, comecei a abrir contato com o Mestrado em Sociologia rural, na UFRGS. Era meu sonho. Escrevia longos textos sobre o impacto do Mercosul nas pequenas propriedades familiares do Rio Grande do Sul.
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Imperceptivelmente, creio hoje, comecei a misturar economia com sociologia e a mergulhar num enredo complexo. No mestrado, em Sociologia, cheguei a receber críticas por ter uma veia econômica muito forte e até hoje não consegui dissociar a economia da sociologia, como querem as bancas de mestrado e doutorado. Mas eu também passava enfiado com o Direito acabei fazendo Direito. Mas, mal entrei para o Direito, liguei-me a nova escola jurídica, conheci pessoalmente Roberto Lyra Filho* e aí passava mais envolvido com Filosofia do que o Direito propriamente dito.
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*Jusfilosofo ROBERTO LYRA FILHO, Professor Doutor pela UNB, criador da Teoria Dialética do Direito e da Nova Escola Jurídica. Autor de obras como O QUE É DIREITO. Faziam-lhe companhia: Warat (O Saber Crítico e Senso Comum Teórico dos Juristas) , Wolkmer, Agostinho Ramalho Marques Neto ...
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Lia Foucault, mas também lia a anti-psiquiatria. No direito, nas cadeiras de medicina legal, voltei-me para a psicanálise e comecei a estudar Freud e Lacan. Achava Jung muito místico. Mas sempre amei Cooper e Laing, especialmente sua crítica a psiquiatria tradicional, tanto que são conhecidos, hoje, como fundadores da anti-psiquiatria e -recentemente – um idiota do DMJ do TJRS me disse que eu citava autores que ele não conhecia, paciência, não posso responder pela insipiência alheia.
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Mas eu também vivia uma contradição terrível. Se de um lado achava Jung místico, de outro, vivia atolado nos livros de Valdomiro Lorenz, sobre Cabala. Acabei na sociologia das religiões. O judaísmo é fascinante. Boa parte dos meus amigos judeus, são ateus. Contradição? Não, grandes líderes mundiais também o são: Marx, Lenin, Trotsky, Freud … quem não é?
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Quem acompanhou bem essa minha trajetória, em Porto Alegre (antes de  me mudar para São Paulo) foi o nosso colega, Advogado local, Cilon Pinto, ele é bem anti-judeu e era amigo íntimo do Bernardo(judeu) e sabe bem da sinagoga que frequentávamos no bairro mais judeu de Porto Alegre, o Bonfim.
Desisti da ideia de ser professor. Pensei que eu seria um homem completo quando dominasse os arquétipos das principais ciências e assim comecei e incursionar pela ciência política, pela sociologia, pela filosofia, e tudo  me levou – naturalmente – a economia, direito, psicanálise, antropologia … logo, conclui que o saber sistematizado em cada curso superior era uma robotização da pessoa, eu imaginava um ser humano com conhecimentos mais amplos … um curso superior só aliena e pessoa dentro daquela armadilha.
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Fico escandalizado com as cabeças de juízes e promotores dessa geração mais jovem. São altamente mecanicistas, embora não saibam sequer quem foi Althusser ou Marta Harneker. Se me escandalizo com o mecanicismo, não é diferente meu juízo sobre o maniqueísmo. Isso é impossível no Rio Grande do Sul? Ximango ou maragato? Grêmio ou inter? Arena ou MDB?
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Tive a felicidade de conhecer  Bárbara Freitag e sua proposta de interdisciplinaridade. Conheci-a pessoalmente, assim como seu esposo Sérgio Rouanet, diplomata, tucano, que vive sendo atacado pelos tucanos que acham que ele é PT, pela lei de incentivo à cultura que leva seu nome. Foi aí que comecei a descobrir meu verdadeiro eu. Mas já era tarde demais. Fiquei 30 anos lendo quase de tudo.
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Maduro, consciente, não há mais espaço na minha vida para ler Humberto Eco e como elaborar uma tese. A vida segue em frente. O que eu fiz foi uma loucura luxuosa de obter prazer com o conhecimento. É como ser necessário a delícia de um Henri Jayer Cros Parantoux-Vosne Romanee Premier cru numa bela taça de cristal olhando o por do sol do Guaíba … com caviar ou pão torrado com patê francês de coração de aves … e quem sabe ouvindo Bach, Tocata e Fuga, em ré menor …
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Tive o privilégio do contato com a melhor literatura alemã, francesa e russa … pude comprar os livros que desejei … Seguindo … Um dia, eu percebi que cada campo das ciências, tem seus paradigmas. Obviedade ululante, diria Nelson Rodrigues. Levei anos para entender isso.  Eu não entendia a antropologia. Mas também não tinha método para chegar nos paradigmas. Por favor, não confundam Método com metodologia. Método é produto raro e mesmo que o cita sequer sabe a extensão de seu significado.
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Foi incursionando com Método que descobri que tudo se assentava num tripé: fonologia, psicanálise e marxismo. Saussure, Freud e Marx,  Darcy Ribeiro (e Roberto da Mata) estavam debulhados em minhas mãos, até a semiologia e a construção e desconstrução de cortes epistemológicos, à Japiassu. Fiz como Olavo de Carvalho e comecei a estudar por conta. Não pensem que é fácil a vida de estudos por conta. Um dia descobri: Tudo Começou com Maquiavel, de Luciano Gruppi, aí comprei um dicionário de ciência política, de Norberto Bobbio e descobri uma obra fascinante: As concepções políticas do século XX, de François Chatelet e Evelyne Pisier-Kouchner, de onde derivou-se minha melhor visão acerca do Estado.
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Embora, ressalve, no curso de sociologia, tive uma boa base anterior, em ciência política, estudando a origem do poder e as primeiras formas primitivas de Estado. Se eu fosse pedreiro, faria casas, sentaria tijolos. Como não sei bem ao certo quem sou até hoje, vou trabalhar com quem não sabe nada ao certo, aqui todo mundo crassa a pretensão e o exílio daquilo que não compreendemos. Logo, punimos, quem pensa diferente.
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É melhor rotular, depreciativamente, aquilo que não compreendemos do que tentar entender aquilo que nos parece distante. Quero voltar à Sinagoga do Bonfim,  seguir com minhas amizades, rever velhos amigos e trabalhar, trabalhar, com meu ofício. Amizades que ficam, pois a política passa.
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Eu sou mortal, erro muito, tenho grandes limitações, sou frustrado em muitas coisas, perdi minha família e enganei-me terrivelmente com pessoas que amei muito e de forma pura e sincera. Enganei-me muito com pessoas que se diziam amigas, mas eram ávidas em cravar um punhal nas minhas costas. E foi assim que descobri a extensão da podridão da justiça Encerro o ano convicto de que a traição não tem regras e nem tecido social e inicio 2026 pronto para todos os embates, não escolho armas, mas disposto a qualquer enfrentamento, conheço bem a podridão e sei ser implacável com quem foi implacável comigo.
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Mas, chega a hora que uma decisão precisa ser tomada. Uma conjunção e uma série de fatores colidiram na conspiração cósmica para que tudo acontecesse.   O amor existe, é lindo. É conjunto de afeições profundas. Pouca gente sabe o que é amar por completo. É tudo tão complexo. Nossas almas são inquietas. Irrequietas. Buscamos sempre a mansão do amanhã.
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Dou graças a banalidade da vida e apenas carrego marcas de enganos, como eu sei o quanto fui enganado e ludibriado, conheci as pessoas mais falsas do mundo que eu jurava serem as mais retas e decentes. Eram a maior podridão e falsidade.
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Aprendi ao longo de minha vida que sempre existem vários caminhos. Assim, sei onde começa e onde termina o Direito. O Direito é apenas um caminho. Assim como a morte e o nascimento. Eu estou dizendo que a morte é também um caminho.
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Toda a violação a minha Dignidade não passará impune, não me importa quem sejam os violadores, é meu desafio e meu desafio é minha vida. Tem gente que acha que controlando meu whats ou minhas redes sociais me controla. Eu sempre sei mais do que escrevo, muito mais e sei que certos assuntos não são permitidos nas redes sociais. Por isso, só os trato pessoalmente ou por um número que só eu tenho.  Eu ainda aguardo pelo STJ para pedir autorização para apresentar 5.300 páginas, frente e verso, de folhas de ofício e agora minha fonte me baixou mais 341, sempre no mesmo estilo. Eu sei que estou grampeado, sei quem mandou me grampear e me divirto até com a insensatez de quem acha que eu não sei o que faço e o que digo.

Eu não faço nenhum esforço para buscar os fatos novos, todos caem na minha mesa.  Embora, eu até veja exageros, como vídeos de duas senhoras trocando beijos, uma pobre adolescente desmiolada que caiu numa T2, é claro tem gente que se acha acima dos demais e caem nas técnicas mais primárias do 8.

O meu amigo, que é da ABIN, sabe que eu escrevo para poucos e ele sabe o que é o 8, que tem estacas fincadas em todas as cidades da região, quase todas.  Tem muitas que eu sequer sei, mas nessa que eu conto a historieta eu sei bem desde muitas décadas atrás. Essa gente não é de tirar lições de Sun Tzu e nem de Nicolau. Eu acho uma graça desse pessoal que se acha, por isso não pertenço a seitas e mantenho minha integridade intelectual sem cair em malversações e em engodos.


Foto do dia 24/01/26

*Autor de 6 livros  todos publicados pela PALLOTTI e GRUPO EDITORIAL FRONTEIRA-OESTE, jornalista nacional com registro no MtB nº 11.175, Registration International Standard Book Number nº 908 225 no Ministério da Cultura do Brasil, desde 17 de abril de 2008, Sociólogo 1983/1987, 90/91, Advogado 1994/2004 e Teólogo 2021/2024. Pós-graduado em Leitura, Produção, Análise e Reescritura Textual 2007/2008, com o livro A LINGUAGEM JURÍDICA NA IMPRENSA ESCRITA e também Pós-graduado em Sociologia Rural,  2000/2001, com o livro O IMPACTO DO MERCOSUL NAS PEQUENAS PROPRIEDADES FAMILIARES DO RIO GRANDE DO SUL ( não editado).

Direito: ciência ou ideologia?

*Júlio Prates

A legalização do aborto na Argentina detonou uma discussão nos meios políticos, jurídicos e teológicos em nosso país, assim como em diversos outros: o assunto é explosivo.

Escrevo sobre o Tema há alguns anos e reescrevo o artigo.

Seguidamente tenho me defrontado com advogados colegas que, imperceptivelmente reduzem o Direito a codificações positivadas, como se não existissem Direitos fora das positivações. Existem direitos que não são reconhecidos pelo Estado, mas nem por isso deixam de ser direitos. Até onde as limitações jurígenas permitem navegações, vislumbra-se duas grandes vertentes epistemológicas no campo da ciência jurídica: o jusnaturalismo e o positivismo.


Com clareza, identifica-se, ainda, a teoria dialética do direito, também uma vertente epistemológica, embora nem sempre clara, nem sempre visualizável, nem sempre assumida, porém, extremamente complexa.

As duas principais vertentes ideológicas no campo da ciência política – jusnaturalismo e positivismo – continuam sem conseguir dar conta de seus pressupostos epistemológicos ao nível do desenvolvimento das modernas teorias do conhecimento; seja o positivismo que reduz o direito à lei, não conseguindo resolver através de seu instrumental teórico problemas como o da legitimidade, o da pluralidade de ordenamentos e outros, acabando assim por reconhecer, implicitamente, como em Kelsen, por exemplo, o seu fundamento na dominação pura e crua do Estado.


Por outro lado, o jusnaturalismo eleva a padrões metafísicos e abstratos o problema da “justiça”, como se pudesse existir um padrão fixo e imutável dessa categoria, separando-a da realidade histórica e concreta, acaba assim referindo-se a fundamentos de ordem teológica, como se pudesse existir uma categoria de justiça divina e como se essa pudesse ser universal.

Em outras palavras, tanto o jusnaturalismo quanto o positivismo acabam por se referir, reciprocamente, em seus fundamentos últimos, a pressupostos metodológicos idênticos.
Assim o é na teoria pura de direito de Kelsen, que acaba se reduzindo a um fundamento de cunho jusnaturalista – que é a própria norma fundamental – vide pirâmide kelseniana. Por outro lado, o jusnaturalismo (que em tese é o contraponto ao positivismo) em última hipótese, para poder ter sentido prático, acaba por ser teoria que dá sustentação ou justifica esta ou aquela ordem jurídica dominante.

No conflito dessas duas grandes vertentes epistêmicas, foi que teóricos brasileiros, dentre eles, o saudoso Roberto Lyra Filho, Agostinho Ramalho Marques Neto, Marilena Chauí …  vislumbraram a grande brecha de construção de uma nova teoria jurídica, principalmente que rompesse com o maniqueísmo entre o jusnaturalismo e o positivismo.

Claro estava que era necessário romper com a idéia de que Direito só seria Direito se fosse legal, instado o raciocínio: acaso o processo de gênese (jurisginação) não é anterior à sua positivação e esta (a positivação) significando apenas o reconhecimento de direitos cuja gestação já ocorreu no processo histórico?


A vertente complexa a que me referi anteriormente é a dialética. Tanto Roberto Lyra Filho quanto Marilena Chauí, usaram a conceptualização marxista da expressão. Isso fica claro na leitura da obra de Lyra Filho: Karl meu amigo, diálogo com Marx sobre Direito e também no livro O QUE É IDEOLOGIA, de Marilena Chauí.


Marx, ao construir os pressupostos de sua teoria política e, sobretudo econômica, foi buscar o conceito de Dialética em Hegel, eis que desprezando o idealismo que via nessa, apropriou-se somente daquela. Aí, acresceu o materialismo de Feuerbach, gestando, a partir de então, o materialismo dialético.


É claro que não vou fazer, nesse breve texto, uma divagação mais profunda acerca das bases dos pressupostos teóricos de Marx que, a rigor, incluem os filósofos iluministas franceses, Ricardo, e a economia clássica inglesa, além, é claro, de Hegel e Feuerbach, … conquanto a intenção é apenas demonstrar que um instrumental essencialmente marxista – a dialética – foi pinçado das teorias clássicas e jogado no nosso mundo jurídico, fato nem sempre percebido e quase nunca visualizado nem mesmo por muitos que falam em direito alternativo ou uso alternativo do direito. 


O escopo, a rigor, também é nem entrar nessa seara, conquanto pactuo da idéia de que o uso de um instrumental teórico como a dialética, aplicado a situações complexas entre o justo e o legal, pode florescer alternativas.

A tradição aristotélica ocidental forjou um pensamento essencialmente mecânico, dentro de uma esquematização em que tudo precisa ter um enquadramento lógico formal. Lógica dialética é um bicho de sete cabeças.


É claro, não existe preparo para entender o pensamento dialético, com suas contradições, teses, sínteses e antíteses.

Ademais, esse pensamento é avesso a qualquer crítica, a concordância acrítica é questão essencial para o entendimento do juízo formulatório do raciocínio. Só a partir daí entenderemos os sofismas, os paralogismos e os aporemas.

Tempos atrás, participei com um debate com o pessoal da fundação Ulysses Guimarães, que, erroneamente, apresentavam o marxismo como método.

Disse então ao Márcio (que esteve aqui em Santiago ministrando cursos) que o marxismo não era método e que Marx criou seu próprio método, o materialismo dialético. Karl Marx pegou de Hegel a dialética, e desprezou o idealismo, e, de Feuerbach, o materialismo, criando assim o Método denominado Materialismo Dialético, que alguns também chamam de materialismo histórico.

O pessoal da Fundação me perguntou então como seria aplicado o Método. É simples. Em tudo, tudo que envolve as leis da constante mudança, tudo muda e nada fica como está. O próprio Leandro Konder sustentou que um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio, porque na segunda vez, nem ele e nem o rio seriam o mesmo. Da mesma forma, a dialética não opera com fragmentos (como fazem os juízes e promotores), a dialética opera com o todo e decorre daí que nada é fechado, definitivo, acabado e absoluto. Tudo é suscetível de mudança.

Pessoalmente, dou pouca importância ao estruturalismo ou ao funcionalismo. Embora, o exemplo de Florestan Fernandes, ao propor um método para estudar uma tribo indígena, isolada na floresta, deveria ser uma fusão da dialética (com suas leis próprias e totalizantes, dentro do enfoque hegeliano) pari passu com o estruturalismo. Pois algo esta dentro, fechado em si mesmo (a tribo), derivando-se daí a fusão desses dois métodos. Aceitável.

A importância de um método, como a dialética, na desconstrução de linhas discursivas é essencial. Por isso, a dialética é profundamente irritante, os mecanicistas do Direito, por exemplo, não suportam o raciocínio dialético. Não sem razão, Carlos Astradas definiu a dialética como “sementes de dragão”. A dialética inquieta os conservadores de direita e de esquerda.

Da dialética:


Engels, o parceiro predileto de Marx, no Anti-Durhing já afirmava que “a dialética é ciência das leis gerais do movimento e do desenvolvimento da sociedade humana e do pensamento”.


O filósofo existencialista francês Jean Paul Sarte, comentando sobre a dialética afirmava: “é a atividade totalizadora, ela não tem outras leis que não as regras reproduzidas pela totalização em curso e estas se referem, evidentemente, às relações da unificação pelo unificado, ou seja, aos modos e presença eficaz do devir totalizante, nas partes totalizadas”.


Oportuno e curioso é refletirmos sobre as considerações de Pedro Hispano, no século XIII, sobre a Dialética: “é a arte das artes, as ciências das ciências porque detêm o caminho para o caminho para chegar ao princípio de todos os métodos. Só a dialética pode discutir com probabilidade os princípios de todas as outras artes, por isso, no aprendizado das ciências, a Dialética deve vir antes”.


Gerd Bornhein, nosso grande e saudoso filósofo gaúcho, comentando sobre a Dialética assim asseverou: “ela existe para fustigar o conservadorismo dos conservadores como sacudir o conservadorismo dos revolucionários. A dialética não se presta para criar cachorrinhos adestrados”.


O argentino Carlos Astrada, vou repetir, foi mais longe: “a dialética é semente de dragões”.


Pois este precioso instrumental de análise, pinçado para o nosso mundo jurídico por Roberto Lyra Filho, um instrumental marxista, tem embasado os pressupostos da assim chamada Teoria Dialética do Direito.


Ela tem se prestado para questionar a legalidade de certos direitos positivados, para questionar a legitimidade dos poderes e também para encetar uma profunda reflexão sobre certos direitos que não são positivados, mas que são legitimados pelo povo. Aponta luzes entre a legitimação e não positivação.


Existem direitos outros não legitimados, o direito a violência reativa é um deles. Ademais, a roubalheira dos políticos, de esquerda e de direita, apenas corrobora a tese do direito à reação. Por que passar fome, viver na inanição, quando os mercados estão aí abarrotados de comida? E próprio direito ao furto se tornaria um direito, embora não reconhecido pelo Estado.


Por fim, o direito é apenas um elemento superestrutural que legitima a dominação de classes. Enquanto os ladrões voam em seus jatinhos portando malas abarrotadas de dólares, os pobres abarrotam os presídios por motivos capazes de causar rubor em quem tem um mínimo grau de civilidade e humanismo.

Existem outras certezas e outras justiças. É claro, da justiça divina ao justicialismo fático dos morros ou dos grupos paramilitares. E também Direitos, mesmo que não positivados. O jogo do bicho é a realidade mais explícita, as bocas de fumo, as clínicas clandestinas de aborto, que todos sabem onde fica e quanto custa um aborto, são direitos exercidos pelo povo, reconhecidos pela sociedade, porém, não positivados, apenas isso. 

É difícil compreender isso?

A questão mais prática que envolve o aborto, fora do debate sobre legalização ou não, seria solver o quadro pelo enfoque da descriminalização, retirando do Código Penal os artigos que o fazem crime, deixa de existir o crime e o resto passa a ser um problema da sociedade e de cada um, no plano individual, com os níveis de consciência objetiva e subjetiva.

Ao abordar a questão do aborto, emitindo um juízo social, não estou emitindo uma opinião própria, estou fazendo um juízo da realidade social e política, posto que este artigo já é reescrito e minha posição pessoal é contrária ao aborto. Contudo, a leitura da realidade social, como sociólogo e advogado, é em cima da interpretação dos fatos sociais colocados.


O aborto é um direito que existe, é reconhecido pela sociedade, porém, não é positivado pelo Estado.

Caso idêntico, por exemplo, é o jogo do bicho. Existe, é reconhecido pela sociedade, mas não é positivado pelo Estado.

Quanto ao aborto, pela não positivação, o ideal seria simplesmente a descriminalização, que nada mais é que a retirada do Código Penal dos artigos 124 ao 128 e o assunto passaria a ser de ordem médica-profilática e sanitária.


O que os positivistas querem fazer é o caminho mais dificultoso. Querem subtrair a ilegalidade da prática, torna-la legal dentro de um jogo de forças totalmente adverso. É só olhar o peso das bancadas evangélicas e católicas que não precisa maiores digressões.


A teoria dialética do direito, aplicada a questão do aborto, certamente pela deslegalização ou descriminalização, sem aportar no arcabouço jurídico um dispositivo legal de positivação, seria a maneira mais factível de enfrentar a questão, na crueldade do dia-a-dia, onde milhares de mulheres são submetidas a violência de clínicas clandestinas, a medicamentos incertos e a factibilidade de contraírem doenças outras físicas e psicológicas.


Por fim, meu lamento triste, pois falar em vertentes epistemológicas do Direito, hoje, soa algo tão estranho como a abordagem de uma solução da Dialética, como Método, pois quase ninguém mais sabe usar Método e – via de regra – confundem-no com metodologia.


Confesso que até hoje tenho dúvidas em tratar o Direito como Ciência, conquanto cada vez mais me parece com ideologia (na acepção gramsciana da expressão).

Foto do dia 24/01/2026

* Autor de 6 livros  todos publicados pela PALLOTTI e GRUPO EDITORIAL FRONTEIRA-OESTE, jornalista nacional com registro no MtB nº 11.175, Registration International Standard Book Number nº 908 225 no Ministério da Cultura do Brasil, desde 17 de abril de 2008, Sociólogo 1983/1987, 90/91, Advogado 1994/2004 e Teólogo 2021/2024. Pós-graduado em Leitura, Produção, Análise e Reescritura Textual 2007/2008, com o livro A LINGUAGEM JURÍDICA NA IMPRENSA ESCRITA e também Pós-graduado em Sociologia Rural,  2000/2001, com o livro O IMPACTO DO MERCOSUL NAS PEQUENAS PROPRIEDADES FAMILIARES DO RIO GRANDE DO SUL ( não editado).