*JULIO CESAR DE LIMA PRATES
O principal porta-voz do Exército de Israel, o contra-almirante Daniel Hagari, afirmou recentemente que não é possível eliminar o Hamas por meio de uma guerra, por se tratar de uma ideologia.
Contrariando o próprio genocida maior, Netanyahu, o militar de alta patente Hagari declarou que não é possível terminar com o Hamas, pois esse é uma questão ideológica.
É claro, não vamos exigir de um contra-almirante do Estado de Israel que ele saiba o que é ideológico e o que não é ideológico. Primeiro, eis que se trata de um militar e todo o militar é cego em debate sociológico/filosófico. Segundo, o militar israelense tem uma visão muito curta, pois ele e seu governo é que são ideológicos, promovendo uma carnificina em cima de crianças, mulheres e idosos. Terceiro, foi-se o tempo em que os israelenses destacavam-se como meritosos, hoje, o mérito é a resistência de um povo como o Palestino, que resiste as mais bárbaras e primitivas atrocidades promovidas pelo estado invasor de Israel, pois a Palestina, inclusas Cisjordânia e Gaza formam o território da Palestina, que vem sendo invadido pelo assentamentos judeus. Gaza, é uma prisão a céu aberto, e esse debate na opinião pública mundial Israel já perdeu há muito tempo, quando usou suas Forças Armadas para destruir casas e matar crianças.
Quando eu li essa declaração de Daniel Hagari fiquei com a séria impressão que ele sequer sabia o conceito das expressões que usava, afinal o conceito ideologia é polêmico mesmo e as resvaladas deixam claro esse abismo.
Vou fazer uma abordagem por etapas:
Sobre o Estado e minha posição ideológica.
Quando estudante de sociologia, logo percebi que também deveria cursar DIREITO, especialmente para entender o Estado, as teorias dos poderes, bem como o arcabouço constitucional. Na sociologia, falávamos em Estado, mas com profundas lacunas. Os sociólogos não dominam nada sobre o aparato do Estado e seus poderes.
Aos 27 anos, dei uma de autodidata. Foi quando eu percebi (tardiamente) que a universidade bitolava o aluno e – por conta – joguei-me numa busca para entender os campos paradigmáticos das ciências sociais e humanas. Era impossível compreender o Direito, sem entender suas vertentes epistemológicas, o positivismo kelseniano, o jusnaturalimo e a teoria dialética do direito. Como entender economia, sem ler os clássicos do neoliberalismo, Friedrich Hayek, Von Wiesse (o Leopold e o Ludwig), em tempo, conhecia tudo sobre a social democracia europeia, socialismo, 2ª, 3ª e 4ª internacional. É claro, Trotsky e Stalin, Smith e a fantástica obra A RIQUEZA DAS NAÇÕES, e François de Quesnay e seu Tableu Economique (li o original em Francês, em 1984).
Em suma, eu precisava entender os paradigmas das ciências sociais, da antropologia, da filosofia, da ciência política e um domínio ía me levando a outros. Por exemplo, quando cheguei na Antropologia, já conhecia Althusser e Marx, mas desconhecia Saussure e Pechet. Desconhecia a arqueologia das construções discursivas. Estava encantado, uma coisa me leva a outra. Exatamente, dos 27 aos 42 anos, fiz a melhor faculdade do mundo, mas para fazê-la precisei me afastar das viseiras da universidade tradicional. Estudei todos estes anos por conta, por isso digo que sou um pouco parecido com esses malucos que estudam por conta. Faço este exemplo, porque sou parecido com os abandonam os estudos. Embora eu tenha cursado 2 faculdades, só consegui realizar meu sonho em busca do saber e do conhecimento, absolutamente andando por caminhos próprios, embora com um método bem delineado, a Dialética.
Ao longo da minha vida, são poucos os clássicos da literatura que não li e são poucos os paradigmas das ciências sociais e humanas que eu não domino.
Com a Dialética, com Harold Bloom (achei fantástico a junção da Dialética com a Cabala Judaica), entendo bem o Direito e o Estado, e, tendo estudado tanto o neoliberalismo, quanto a social-democracia e o socialismo, com as variâncias da revolução russa e chinesa, francesa, cubana, em especiais.
Passei por cinco faculdades para completar meu curso de Direito, e, sociologia, só conclui as cadeiras do bacharelado, após minha expulsão da universidade, via EAD; fiz um pós em letras, outro em sociologia rural.
O que me afastou da esquerda, basicamente, foi compreender o Estado tentacular, algo que sempre me pareceu incompatível com a liberdade. Quanto ao Estado, não acredito em fórmulas prontas, nem de um lado, nem de outro. Acredito que cada caso é um caso a ser construído, assim como os limites da intervenção e/ou da não intervenção.
Não demorou muito tempo para eu perceber o controle que as corporações exerciam sobre o Estado, praticamente dominando tudo e fazendo a sociedade refém. Vi isso na constituinte de 1988, vi isso na constituinte estadual de 1989. A sociedade civil no Brasil é um blefe. As forças armadas, embora influentes, representam também o corporativismo. Somos uma sociedade dominada pelas corporações de servidores públicos, salvo raríssimas exceções de pessoas que se dispõem a empreenderem e os eternos trabalhadores.
A esquerda apropriou-se do discurso e da defesa dos interesses corporativos. Não fala para a sociedade, fala para as corporações. Ou manipula os interesses dos trabalhadores da iniciativa privada. Em qualquer hipótese, uma lástima.
O curioso é que todos falam em nome da sociedade.
Sou ideológico, mas quem mão é?
Volta e meio surgem as críticas de que faço um jornalismo e que minhas posições jurídicas são ideológicas. Como fui acusado de ser ideológico, ao defender minha posição, lembro-me que, em 1985, escrevi um artigo no jornal Zero Hora, onde repliquei monsenhor Dalvit, que acusava o clero progressista de ser “ideológico”. A impressão que fiquei é que o Monsenhor não sabia o que era “ideologia”, do contrário, não pronunciaria tal disparate.
É claro que se os detratores que nos chamam de “ideológicos” se forem ler o livro “O que é Ideologia” da professora Marilena Chauí, vão ficar mais confusos ainda, afinal ela usa apenas uma visão de interpretação. O termo foi criado em l801, por Destut de Tracy para designar a análise das sensações das idéias, segundo o Método de Condillac. Isso aprendi com Abbagnano.
Aliás, o mesmo Abbagnano é quem, com melhor precisão, retoma o debate sobre os ideologistas franceses, que eram hostis a Napoleão, recebiam também a pecha. Os bonapartistas, de forma depreciativa, como os detratores locais, acusam seus opositores de “ideologistas” (PICAVET, Les idéoloques, Paris, 1891).
Porém, Antônio Gramsci, também teórico italiano, fez ao meu ver a melhor abordagem sobre o termo polisêmico e afirmou que todas as manifestações intelectuais, produzidas de forma individual ou coletiva, na arte, na literatura, na pintura, na dança e na música, eram manifestações ideológicas (Concepção Dialética da História). Claro fica, portanto, para Gramsci, que ideologia era afeta a uma visão integral de mundo e independia desta ser produzida pelas classes dominantes ou dominadas, visto que ideologia seria mesmo uma manifestação de ideias. Essa visão gramsciana, contudo, choca-se com os ideais do jovem Marx, de 26 anos, retomadas por Chauí, mas que mesmo assim afirma ser um “contrasenso falar em ideologia das classes dominadas visto que ideologia pressupõe dominação” (O que é ideologia).
Ou alguém acha mesmo, de sã consciência, que defender o desenvolvimentismo nas asas do neoliberalismo econômico mundial, não é uma posição ideológica? A posição é tão ideológica quanto a minha. Ao defenderem um modo de produção assentada na exploração das pessoas, ao defenderem a propriedade apenas as família tradicionais, também, também, estão defendendo uma posição vivamente ideológica.
O que nos difere é que eu sei que sou ideológico, sei o que é ideologia e não vejo nenhum mal nisso, pelo contrário, tenho lucidez para participar de um debate social sem medo de achar que sou diferente dos outros. O que fico perplexo é que esses outros, não sabem o que dizem, pois defendem posições tão ideológicas quanto as minhas. Tudo é ideológico, até quem se diz não ideológico
Minha constatação, nas ciências sociais e humanas, é que não existe neutralidade, todas as posições são ideológicas. O problema reside é em não saberem o conceito de ideologia.
Logo, é facil inferir que o contra-almirante israelense sequer sabe o conceito de ideologia, como se tudo não fosse ideológico.
As forças armadas de um Estado invasor não são ideológicas?
Assombroso, a menos que o contra-almirante realmente acredite que o conceito ideológico só se aplique aos adversários do estado genocida sionista, aliado e plantado pela ONU para confrontar árabes e palestinos, embora os árabes nem de longe tenham a mesma unidade do povo palestino.
Pode até ser que as FFAA de Israel ensinem para os assassinos sionistas que ideológico é quem não fecha com a ideologia da dominação. Pode ser, por que não?
Eu tenho isso bem claro, desde meus 20 anos, onde descobri, de cara, a pluralidade de definições que um conceito pode sofrer. Embora eu tenha uma definição bem marxista no campo da aplicação das ciências sociais, do Direito e economia, não tenho esse mesmo viés na vida prática, embora eu ande muito perto do governo do PT/PDT, mas por ter trabalhado, durante décadas, com as corporações de servidores públicos, decididamente, nunca mais fechei essa visão de associar a luta dos servidores públicos, como se tudo fosse a luta dos empregados, do povo pobre que trabalha, pois o abismo entre o público e o privado continua sendo o mesmo de 40 anos atrás e creio que sempre foi assim.
É claro que eu tenho um lado e meu lado é sempre bem exposto, às vezes com restrições, outras vezes sem restrições. Mas sempre tomo um lado bem claramente.
Minha filha, quando tiver 40 anos, terá uma visão bem diferente do que ela pretendeu com 14 anos, como hoje.
Aí certamente ela entenda melhor o que é um monte de coisas sobre as quais ela nunca sequer refletiu, pois é sabido que a obviedade aboba.
Eu sempre fui dando tempo ao tempo e sou muito feliz com esse entendimento e essa visão.
*Jornalista nacional registro nº 11.175, Registro de Editor Internacional nº 908225, Sociólogo e Advogado inscrito na Sociedade de Advogados nº 9980 OAB-RS. Pós-graduado em Leitura, Produção, Análise e Reescritura Textual e também em Sociologia Rural. Autor de 6 livros.
