*JULIO CESAR DE LIMA PRATES

O Russo vai dar o que falar. Já publiquei crônicas do Oracy Dornelles sobre sua morte, sobre o sofrimento que passou antes de morrer, cujo corpo foi estirrado com vida na antiga cadeia, hoje câmara de vereadores e no exato local onde será construído o multipalco Caio Abreu. Contam que ele ainda foi trazido com vida, que gritava muito em função dos ferimentos e lhe deixaram morrer a míngua.
O Cartuninsta Santiago conseguiu os autos do processo de então. Leu tudo atentamente e o fato constitui-se num notável fenômeno sociológico (falo em sociologia da religião e fenômeno messiânico) na medida em que seu túmulo é alvo de amplas visitas, centenas de plaquinhas agradecendo por graças alcançadas, o povo faz oferendas com cigarros, charutos, garrafas de cachaça, grãos de milho, dezenas de velas queimadas por dia.
Nesse dia de finados haverá uma peregrinação ao seu túmulo. O Russo não é um santo institucionalizado, mas é o santo mais popular de Santiago e da região, nenhuma outra cidade tem um herói-ladrão cuja alma dizem ser santa e que atende a preces (fato comprovado nas centenas de plaquinhas de agradecimento).
Agora, o Russo vai ser imortalizado pelas mãos do maior cartunista do mundo e um dos maiores intelectuais do nosso Estado, o santiaguense Neltair Abreu, mais conhecido como Santiago e sua história vai correr o Brasil e o mundo, desde o vilipêndio desonroso que fizeram com seu corpo, de não entrar pelo portão da frente do cemitério e sim jogado pelos fundos, até os urros desesperados pelos ferimentos e a morte a míngua, sem socorro, onde hoje é câmara de vereadores.
É claro que essa história do Russo é uma questão ideológica e deve ser vista do ponto-de-vista da luta de classes em nossa cidade e região. Para alguns setores da sociedade santiaguense Russo é um bandido e não merece tal culto. Para outros, ele é o mais popular herói e santo de nossa cidade. Se não é um santo legitimado pela Igreja Católica, o é legitimado pela aclamação popular e deriva-se daí a perspicácia e a leitura de Santiago.
Reconhecemos o esforço da Professora Rosâni Vontobel com seu projeto “Santiago do Boqueirão, seus poetas quem são”. Segundo a Professora esse epíteto era uma tentativa de anular aquele outro famoso que nos identificava por esse Brasil afora: “Santiago do Boqueirão, quem não é bandido é ladrão”. Ironicamente, nossas elites estão furiosas, pois a obra de Santiago vai dar notoriedade a quem eles chamam de ladrão e bandido. Um ladrão e bandido que a aclamação popular transformou em santo e milagreiro e cujo o túmulo é alvo de peregrinação. A dialética é fantástica, escreve certo por linhas tortas e a história oficial agora será recontada, reescrita e reinterpretada.
Que peça o destino está pregando na sociedade santiaguense.

