Um crime, um santo ou um bandido? Por que brigam os santiaguenses?

*JULIO CÉSAR DE LIMA PRATES

Foto do jornalista RAFAEL NEMITZ.
Foto do jornalista RAFAEL NEMITZ.

Um crime, praticado em Santiago, em 1930, está dividindo opiniões dos intelectuais santiaguenses e da região. A matéria, aliás, seria um prato cheio para os estudantes de Direito da nossa faculdade, afinal o que se debate é a inocência ou a culpa de um homem.

Em seu livro “Páginas Impossíveis”, Oracy Dornelles abriu uma discussão interessante sobre o assassinato do Russo. Friso que a mesma matéria constante do livro, já havia sido publicada nas páginas do Jornal A Hora, anos antes. Friso que ganhei os originais do processo da morte do Russo, que era Theco,  de presente do cartunista e arquiteto santiaguense SANTIAGO.

Mas vejamos o que diz Oracy Dornelles:

“…No ano de 1930 houve um crime bárbaro aqui em Santiago. Três estrangeiros, dois alemães, Hermann Senn e Joseph Küller, e um “russo”, o Minardi, assaltaram e mataram duas pessoas, pai e filho, sendo o pai um abastado fazendeiro e proprietário de muitas terras neste município.

Perseguidos pela polícia, o “Russo” foi morto a tiros, e os outros dois, Hermann e Küller, foram presos e julgados. Condenados pelo júri, vieram a morrer, mais tarde, na Casa de Correção de Porto Alegre.

Hermann e o outro não falavam português. Este ditou sua “defesa” em francês, o tradutor foi José Piva. Colocaram, eles, Hermann e Küller, a culpa em Minardi, o Russo, que estava morto e não podia defender-se. Onde está a prova de que foi o russo que matou os santiaguenses? Não poderia ter sido Hermann ou Küller? Lógico, era mais fácil colocar a culpa toda em quem já estava morto…E assim foi feito. Mas os jurados não acreditaram na versão dos dois assaltantes, basta dizer que foram julgados e condenados!!!

Passaram-se 76 anos…(hoje não 79).O povo, sempre o povo, dado à judiaria imposta ao cadáver do Russo, pisoteado, cuspido, enterrado nu, no cemitério local, o povo começou a julgar melhor esse lamentável fato. Faziam promessas à alma desse desprezado. E o mais fantástico: eram atendidas as promessas feitas. Depois vieram placas de agradecimento, gravadas: louças afixadas à sepultura por “graças recebidas”, etc.

O Russo foi morto pelo sr. Leopoldino Soares Paula (Dica Soares), a tiros de revólver calibre 38, de tocaia. Veio tornar-se mais tarde abastado fazendeiro. Foi a júri, defendido pelo Dr. Dario Beltrão, e absolvido. O Russo estava com fome, estava numa lavoura de milho, comendo milho verde, (cru, naturalmente). Na ocasião sua boca estava cheia de grãos de milho…Por isso é que até hoje se observa em seu túmulo, oferendas de espigas de milho verde…

Muitos desses que tombaram na violência e na indisciplina, por um processo estritamente místico e devocional, transformaram-se em repositórios da abnegação e do louvor populares.

Os tempos melhoraram, mas ainda notamos resquícios da primitiva crueldade do povo. Inventar um fantasma, ou um santo, é um magnífico recurso para dar-se vazão aos truncados problemas do espiritualismo, ou da parapsicologia, como queiram, que povoam o labirinto misterioso da nossa mente, pois possuímos, mesmo, faculdades extraordinárias nunca dantes exploradas. Bem disse Eliphas Levi em seu “Dogma e Ritual de Alta Magia”: “o homem é o taumaturgo da terra, e pelo seu verbo, isto é, pela sua palavra inteligente dispõe das forças fatais”.

Conclusão: um joão-ninguém poderá transformar-se num milagreiro, mas um latifundiário nunca chegará a ser santo”.Esses trechos transcritos estão nas páginas 12 e 13 do Livro de Oracy, Páginas Impossíveis.

A discussão levantada em Santiago é puramente ideológica. Oracy levantou as hipóteses. Tempos depois, o jovem Fábio Monteiro tratou o russo como um santo popular. Contra isso, insurgiu-se o Froilan Oliveira, negando todo o contexto, inclusive de santidade. Não sei se agora o Fábio, que virou direita, mantêm a mesma posição.

As opiniões logo dividiram-se. Embora ninguém diga e todos neguem, mas a esquerda ficou de um lado e a direita de outro. Esse crime e esse conflito ideológico refletem bem a extensão da luta de classes. Mas a questão teve um outro ingrediente: misticismo e espiritualismo. E virou um caldeirão explosivo.

Ao dizer que “um joão-ninguém poderá transformar-se num milagreiro, mas um latifundiário nunca chegará a ser santo”, Oracy Dornelles deu uma sentença definitiva, puramente ideológica e classista. É sempre bom lembrar que nos anos 50 Oracy foi ligadíssimo ao Partido Comunista e a URSS.

É claro que ao pegar o gancho, Fábio Monteiro percebeu que servia aos interesses da juventude socialista esse processo místico que é também demarcador do conflito de classes na região.

Sinceramente, não sei qual foi à intenção de Froilan Oliveira ao entrar no debate. Num primeiro momento, pareceu-me que combatia o misticismo, visto que sua posição é conhecida. Mas, por outro lado, seus argumentos acabaram servindo aos interesses das oligarquias rurais e seus defensores, foi o que percebi.

Minha mãe nasceu ali no Rincão dos Soares, seu nome de solteira era Jandira Soares de Lima, de notório parentesco com Dica Soares, conhecido por matar o Russo. Mas, no mesmo artigo, vi uma citação a outro parente meu, o Ranchão, bandido conhecido. Na página 11, Oracy cita … “grandes e corajosos bandidos, como Alziro Fão, Rosa Tavares e Ranchão.

Minha mãe tinha, a rigor, 4 descendências, Chaves, Soares, Viana e Lima. Cresci-me ouvindo Dona Jandira Soares de Lima contar as histórias do Ranchão, de quem ela foi amiga e parente de sangue. Por extensão genética, eu sou parente de Ranchão e também do Senhor Dica Soares. Tudo, pelo lado materno.

Em 1984, nas férias de janeiro, fui até o apartamento do amigo Tarso Genro, conversar com seu irmão, Adelmo Genro Filho. Conheci o Adelminho, em Santiago, em 1982, e ficamos amigos. Era jornalista. Mas essa minha visita ao Adelminho, no verão tinha um objetivo bem definido. Ele estava coletando informações para escrever sobre Ranchão, Alziro Fão, Rosa Tavares e o nosso Russo. É claro, boa parte de tudo já havia lhe sido passado por seu pai, Adelmo Simas Genro. Mesmo assim, tive oportunidade de contar a ele algumas das histórias que conheci dos relatos orais de minha mãe. Nunca me esqueci desse encontro porque sua companheira, a Dra. Ustra, fumava charutos cubanos e infestava a sala da casa da Dona Sandra e os visitantes com aquele cheirinho nada agradável. Mas, fazia parte, à época. Na verdade, eu tinha tomado água envenenada em um  açude em Maçambará e a Sandra Genro, médica, me ajudava nessas ocasiões em que me sentia sozinho.

Creio que Adelmo havia percebido um conteúdo ideológico na bandidagem da época e daí seu interesse.

A propósito, esse assassinato dos membros dessa família santiaguense e o do “russo”, quer queiramos, quer não, tem um importante componente ideológico e histórico. Até hoje não se sabe quem eram os senhores Hermann e Küller. Eram alemães, certo. Mas o que faziam aqui, se sequer falavam português? E pela história dos autos do processo, nota-se que Hermann falava francês fluentemente a ponto de expor toda sua defesa nessa língua. E o russo só falava mesmo theco. O que nunca ninguém pesquisou é o que faziam, no interior de Santiago, 2 alemães, um deles poliglota, e um theco.

Em algumas coisas concordo com Oracy. Não existem provas de que foi o Russo quem matou pai e filho de um família santiaguense. Pode ter sido ele, como ter sido Hermann ou Küller. Ou ambos, ou os 3 juntos? Temo que nunca saberemos isso.

Noutra coisa estou de acordo com Oracy: o túmulo do russo é alvo de constantes manifestações de fé. Basta entrar no cemitério e ver. Seu túmulo é cheio de placas, símbolos, oferendas, isso é uma verdade irrefutável. Daí discutir se existem milagres e graças alcançadas, vai um abismo. Particularmente, não acredito em nada disso. Mas que a fé das pessoas tem gerado tais manifestações, isso tem.

A grande questão que aflora disso tudo é se a Terra dos Poetas vai ser também conhecida como a terra de um santo milagreiro, italiano ou theco, que ficou conhecido como russo e morto por ser acusado de banditismo. E que – segundo consta – também foi assassinado em condições bastante cruéis, posto que ainda foi trazido vivo para a cadeia de Santiago, onde gemia (dizem os relatos) e lhe foi negado assistência, sendo que morreu estendido num madeirão, como se a sociedade se vingasse da morte de seus integrantes ilustres, deixando-o morrer a míngua. E mais, pateticamente enterrado nu, sem direito a flores e velas, como os ritos cristãos de despedida.

Não vejo problemas em as pessoas acreditarem nos milagres do russo e no atendimento dos pedidos que fazem ao redor do seu túmulo. Se os pedidos são atendidos, é o que conta. Afinal, pedidos são feitos a entidades metafísicas diariamente, em terreiras, em igrejas, em cemitérios…E para povoar ainda mais o folclore popular, que bom que esse italiano ou theco fosse mesmo um santo. Afinal, temos poetas de mais e santos de menos. Devoções mesmo, a ponto de vermos manifestações explícitas de fé, que me perdoem as elites e intelectuais de Santiago, mas só vejo isso no túmulo do Russo.

E , por fim, quem decide o que é santo ou não, é o juízo subjetivo de cada um de nós. Embora algumas instituições arroguem-se, do alto, o direito de impingir-nos conceitos prontos e acabados, definições conceituais e tudo mais. Mas vejam como é a vida, a igreja católica ta cheia de santos, mas o povo prefere fazer oferendas e promessas para o russo, lá no cemitério.

Essa é a opinião de um ateu. Ou quase ateu. Estou ainda em construção.


*Jornalista MTb-RS 11.75, Jornalista Internacional com registro de Editor nº 908225, Sociólogo, Teólogo e Advogado.

Pós-graduado em Leitura, Produção, Análise e Reescritura Textual e também em Sociologia Rural.

Autor de 6 livros e titular de blog www.julioprates.com desde o março de 2002.