A rigor, adentrar para a política não seria nada anormal. Anormal, é, o que assistimos hoje. Não tenho estatísticas exatas, e até imagino que ninguém as tenha. Mas é certo que em torno de 90% dos líderes evangélicos, pentecostais ou neopentecostais, defendem abertamente uma ideologia de extrema direita e de direita, cujo alinhamento internacional desconhecem, assim como suas raízes.
Hoje, quase todo o movimento político de direita no Brasil passa por dentro das lideranças evangélicas. É claro que existem exceções, mas são exceções.
Por outro lado, quem mais tem radicalizado ao lado das lutas sociais, em defesa dos pobres e dos humildes, são os padres e bispos católicos.
Eu e centenas de amigos evangélicos vivemos uma contradição quase insanável. Nossos líderes cultuam à direita e fomentam um pensamento ligado aos poder, aos grandes conglomerados e integram a bancada mais corrupta que se tem notícia no congresso nacional.
Da mesma forma, é perturbador o alinhamento acrítico com o governo de Israel (não falo do Estado de Israel), pois sei bem das contradições da sociedade israelense. O próprio Karl Marx, era judeu. Assim como Lenin, Trotsky, Freud … Mas vivemos de incentivar o ódio contra os islâmicos e o Alcorão, para ficar nisso. Quem está certíssimo nesta questão é o Papa Francisco, que defende um diálogo inter-religioso. Não vejo padres pregando contra os islâmicos. Mas os arquétipos dos discursos evangélicos são vivamente incentivadores de ataques ao islamismo.
Somos milhares de evangélicos de incomodados. Primeiro, porque as igrejas evangélicas passaram a criar partidos e todos, gostem ou não, de direita e extrema direita. As igrejas se tornaram redutos de divulgação de uma ideologia alinhada com as classes dominantes, não externam preocupação com os pobres, e sempre que se posicionam – politicamente – é para defender corruptos e a ideologia mais direitista possível.
Isso contradiz os ensinamentos de Jesus em tudo, em praticamente tudo. Jesus era humilde, pregava o perdão, a repartição do pão, a igualdade e a vida em sociedade fraterna.
Hoje, não tenho a menor dúvida que a igreja católica está mais em sintonia com as aspirações populares. Não existem padres envolvidos em escândalos (há exceções) de compra de mansões, desfilando em carrões, fazendo negócios paralelos à fé.
É claro que todos somos imperfeitos. Mas das nossas imperfeições deveríamos fazer uma igreja perto da perfeição. Mas o que assistimos é o comércio da fé, uma exploração sem precedentes, a divulgação de uma teologia da prosperidade altamente questionável, o egoísmo e a busca para si, esquecendo-se do ser, do semelhante, do irmão.
Confesso-me em crise quanto ao campo religioso. Não em crise em minha relação com Deus.
Deus tem sido altamente generoso comigo, reconheço o quanto sou abençoado, como tudo na minha vida, para o que almejo, dá certo. Tudo o que busquei, consegui. Talvez tenha conseguido porque busquei tão pouco…Vivo feliz, e ainda tenho uma luta – onde tenho orado muito – que é para alinhar o destino de minha filhinha. O mais, tenho meu trabalho, ganho meu pão com dignidade, tenho um quarto para dormir, roupas e cobertas … e sou um homem feliz. Credito tudo isto a bondade de Deus. Com isso explico que minha crise é religiosa, mas não com Deus.
Noto quantidade de amigos na mesma situação minha. Andam perdidos de igreja em igreja, não se encontram … embora todos vivam com Deus no coração e praticando os princípios divinos.
Deus é perdão, Deus é amor, Deus é reconciliação. Noto o quanto ódio é destilado contra presos, contra pessoas que cometeram eventuais erros, pois mesmo tendo pagos seus erros, continuam a serem julgados … e acreditem: os maiores críticos e que seguem julgando a vida das pessoas, são os evangélicos e a construção de uma narrativa singular. É tudo muito complexo e confuso.
Oro para que Deus me dê sabedoria e inteligência para eu superar estes óbices. Talvez eu nunca encontre esta resposta, talvez eu vá sofrer ainda mais ao ver este alinhamento dos meus e os não meus, alinhados contra os pobres, humildes e açoitados, porém, usando este contingente acrítico.
Espero que as pessoas me entendam. Se não tiver solução, vou continuar cada vez mais distante dos evangélicos. Lembro-me do último culto que assisti numa igreja que eu frequentava.
Queria estar dentro, mas meu espírito e minha alma têm ojeriza as pregações que defendem o nazismo (e contraditoriamente defendem Israel), que incitam ódios contra as demais religiões …
Hoje, curiosamente, começo a entender o fenômeno dos desigrejados, são evangélicos sem igreja. Coisa curiosa, é o quanto cresce este movimento. Noto isto em minha cidade e em todos os lugares por onde ando.
Entendo que uma igreja é um local santo, de liturgias, onde as pessoas se encontram para falar com Deus, para louvarem a Deus, mas jamais, uma igreja pode ser um local de encontro para divulgação de ideologias partidárias, nem de esquerda e nem de direita.
O cristianismo é essencialmente identidade com os pobres, humildes e acoitados. Mas o que vejo são meus irmãos e irmãs alinhados com o inverso de tudo que Jesus pregava.
As coisas não batem.
Não há sintonia.

