HEGEMONIA E IDIOSSINCRASIAS

*JULIO  PRATES

Desde que deparei-me com a obra de GASTON BACHELARD compreendi, com exata nitidez, diversos aspectos da vida humana, desde o peso do senso comum com a força dos seus juízos morais, que bloqueiam e impedem o avanço da ciência, até os obstáculos epistemológicos que impedem uma interação na vida social, posto que os tradicionais e antigos julgam-se detentores de uma verdade – que, a rigor – não existe. A verdade é apenas uma construção momentânea. Não sem razão, o sábio francês asseverou: “face à realidade, o que julgamos saber claramente, ofusca o que deveríamos saber”. É claro que deriva-se daí o entendimento cultuado no senso comum que aquilo que muitos julgam uma verdade cristalizada, nada mais é que uma ilusão, um ofuscamento, do que esses deveriam realmente saber: que não existem verdades absolutas, que tudo é suscetível de mudança e que nenhum grupo social detêm o monopólio de todos os entendimentos sociais, embora o raciocínio valha para a economia, direito, ciência política … Escandaloso, sob todos os aspectos, a construção discursiva da nossa vice-prefeita e seu sapato assinado para a posse. O povo de Santiago, em sua maioria de 60%, entre situado nas classes sociais C e E/D. O máxima que as pessoas fazem é comprar um sapato novo para um casamento, embora essa prática esteja tão em desuso,  embora eu não tenha dados atualizados por classe social.

O pensamento conservador santiaguense, especialmente na política, expresso no controle político das agências locais de produção de ideologia, e aqui incluo a imprensa, é arrogante e autoritário na medida em que não aceita divergências, não sabe conviver com o contraditório, e acha-se investido messianicamente do poder de controlar tudo.

Esquecem-se, justamente, que o controle é produto de circunstâncias, de construções de interesses, de pactuações, de disputa acertada de hegemonia, das imposições de inteligências e – por fim – de um somatório de interesses até difusos, mas que acabam ganhando força com uma visibilidade que transcende a generalidade do difuso e ganha uma identidade na formulação de pleitos comuns. Isso é muito presente nas classes sociais D e E de nossa sociedade.

O controle hegemônico que o PP detém na sociedade santiaguense é produto dessa unidade de circunstâncias, construções, pactuações e somatórios de interesses. E isso não é nada abstrato, pelo contrário, é tão real e concreto que saltam os olhos de um observador mais atento, especialmente a impotência e a fragilidade dos grupos opositores, que sequer sabem fazer a leitura social e política e a partir dela conceber um contraponto.

Se de um lado não existe disputa de hegemonia e reconhece-se que o PP faz política o ano inteiro, também é notório o abandono das bases, das vilas e do próprio povo. A oposição que durante o período eleitoral esteve nas vilas, agora, praticamente abandonou essa expressiva parcela da população. Se não existe o contato direto com os moradores, o que é plausível numa dimensão espacial diminuta como é Santiago, também não se disputa o campo propositivo, o que é desastre total, especialmente se notarmos que a ofensiva pepista nos bairros é ostensiva, até por força do controle da maquina. Sempre insisti e demonstrei isso no meu livro PAMPA EM PROGRESSO que a hegemonia do PP basicamente decorre da omissão da oposição em disputar tal controle, especialmente desses aparelhos que fazem a correia de transmissão com o poder municipal executivo, refiro-me ao movimento comunitário e associativo.

 

O PP é bom no controle dos programas sociais e o faz com eficácia, entretanto, é horrível no que tange as propostas no campo econômico. Mesmo com todos os indicativos que apontam o desastre total que existe no município acerca da carência de empregos e rendas, falta de um pólo industrial eficaz e pujante, até hoje; a oposição não percebeu que isso é o calcanhar de Aquiles da dominação, e não sabe fazer uma crítica e nem elaborar um programa alternativo de disputa de poder. Entra eleição e sai eleição, ficam todos gravitando em torno de lideranças  que entendem que entendem que fazer política e disputar hegemonia é coisa de nomes, nome esse, nome aquele. Com uma santa burrice dessas dando as cartas em cima de uma legitimidade pífia, apenas por serem velhos, a dominação das famílias tradicionais de Santiago tende a permanecer intacta.

São os velhos conservadores com suas práticas obsoletas que deveriam se retirar e parar de constituírem em obstáculos para o avanço do debate e disputa de hegemonia no campo das ideias.

O PP não é imbatível, quem o faz vencedor a cada pleito, é nossa própria oposição, posto que insiste em velhas fórmulas ultrapassadas de fazer política dentro de Santiago.  Também no meio rural, grassa um sentimento de abandono e seria muito fácil unir esse pessoal todo. Mas não, nada é feito, a exemplo dos sentimentos das vilas e das classes D e E de Santiago. A subjetividade desses sentimentos precisa ser captada e esse captura passa pela elaboração de uma linha discursiva que entre em sintonia com a subjetividade dos desejos e sentimentos.

Enquanto nada disso é feito, a dominação domina solta e sem edição de contraditório.

Novo mesmo só o discurso de Mara Rebelo e seu sapato assinado. Lembrou-me as filhas dos estancieros dos anos 70, que quando casavam vinha um costureiro de POA assinar o vestido. Era um esbanjamento total, mas afinal eles precisavam gastar de alguma forma seu dinheiro, na época, as custas da pecuária. Santiago é um município amável, um povo dócil e hospitaleiro, temos uma posição estratégica, local alto, sem rios em roda e nisso somos altamente privilegiados, duvido quem não ame Santiago.


*Autor de 6 livros, jornalista nacional com registro no MtB nº 11.175, Registro Internacional de jornalista nº 908 225, Sociólogo e Advogado.