Esperem

Um véu cinge a tarde da pacata de Santiago. Existe euforia por um show, cujos cantores sequer sei o nome. Saio em busca de algo para comer.

No sou o mesmo Júlio. Meu peito está sufocado. Uma dor cala fundo em meu ser. Reflexões que me surgem à cabeça.

Durante anos, pouca gente acredita nisso, advoguei sem cobrar das pessoas, por entender que eram pobres e que precisavam de ajuda. Hoje, quando me vejo sozinho, desesperançoso e sem ninguém para falar, lembro-me de que nada a vale a pena e tudo é o inverso da máxima de Fernando Pessoa.

As pessoas se aproximam da gente apenas por interesses. Resolvidos seus casos, o que a gente pensava que era amizade, se dissolve como a mágica brevidade do vento.

Tudo nessa vida é dinheiro. As pessoas são movidas por dinheiro, o dinheiro compra tudo. Compra amor, compra carinho, afeto e afeição.

A vida é uma eterna falsidade. As pessoas são falsas, usam umas as outras por simples interesses. Amizade, camaradagem, são valores abstratos, que só existem no papel.

O ser humano é, em essência,  ruim.

Cheguei nessa altura da vida, porém, profundamente desiludido contudo, tudo me soa falsidade, cinismo, hipocrisia.

Eu não sou desse mundo. Para começar, não minto, só falo a verdade e o fato de falar a verdade me custou caro demais. Mas não faria diferente. Não me arrependo de ser assim como eu sou.

Sei cada detalhe de quem armou nas minhas costas. É  próprio dos pequenos atingirem pelas costas, mesmo que sejam altos e finjam terem outra identidade. Eu sei o que é aparência e sei o que é essência.

Dias atrás, eu me dirigia ao mercado e reencontrei, após muitos anos, o Marquinhos Peixoto, filho da Dra. Karine. Há muitos anos não  o via e custei a ver que era ele. Ele deve estar com 13 anos. Gritou pelo meu nome, Parou e ficou sorrindo com alegria e afeto. Eu percebi  a pureza daquela doce alma e vi o quanto teve significado ter dado amor ao Marquinhos quando criança. O gesto dele, o sorriso, a meiguice e a pureza do olhar contaminaram-me positivamente. Foi tudo tão puro e tão sincero.

Lembrei-me de minha filha. Como minha relação com ela foi destruída pelas forças satânicas. Mas é o papel do diabo. É o diabo que não pode ver ninguém bem.

Tempos atrás, procurou-me uma senhora e seu esposo. Contou-me que buscaram por mim durante dois anos, embora fossem vizinhos do meu sobrinho em Nova Esperança do Sul.

Família, aliás, é sempre uma farsa. Não sei como minhas irmãs têm coragem de entrarem em suas igrejas. E vamos morrer assim, separados pelo doença do ciúmes, da intriga e da inveja.

Mas essa senhora contou-me sua história; pobres demais, com a LOA cortada, mesmo assim ela decidiu me procurar, crente e convicta de que eu a atenderia diante de sua tragédia e de sua família.

Como não me custa atender ninguém pobre que me procura e essa me procurava há dois anos, aceitei o desafio de ajudá-los.

Descobri que o Direito é apenas uma farsa, na prática, é uma farsa. Foi ali que tomei a decisão de terminar de atender essas pessoas e renunciar minha carteira da OAB. Decididamente, não quero mais ser advogado.

Existem acertos a serem feitos, mas esses eu farei ao meu modo, sem o direito e sem advogados. É um acerto de diabo para com o diabo.

Torno público aos meus raros amigos, que vivo os momentos mais crueis e difíceis de minha vida. Vivo os momentos mais tormentosos, mais machucados e mais infelizes de toda a minha vida.

Sei entender os jogos, nunca me dei bem por dentro de jogos, mas sei me dar bem quando vou para o campo aberto daquilo que eu sei fazer. E nem que seja a última coisa que eu faça em minha vida, mas vou fazer o acerto, com nomes, com datas e relatos dos fatos. Aí sem OAB, sem direito, sem amarras, trabalharei livremente pela minha consciência.

Peço desculpas a todos, mas eu vivo os piores momentos de minha vida, enfrento as maiores dores e espero resistir. Todos saberão minha versão sobre os fatos.

Sem cinismos, sem hipocrisias, sem palavras românticas, sem verborragia religiosa, esperem pelo papel do diabo.