Ontem, eu fui escalado para representar nosso Escritório no velório e enterro do colega Carlos Martins Alegre. Como eu não conhecia ninguém da família do colega, senti-me bem deslocado, embora a amabilidade de todos. Fiquei muito chocado com as cenas do seu filhinho, de apenas 13 anos, colocando as mãos sobre o pai morto, imagino a dor da pobre criança.
Por fim, com a chegada do colega e amigo Dr. Júlio Garcia, meu amigo desde o ano de 1978, fiquei mais a vontade, mas sempre um tanto deslocado nos atos fúnebres. Júlio Garcia é uma pessoa muito reta e sempre muito educado e polido.
A Simone contou-me que Carlinhos jantou e parece que foi uma chegada de morte tranquila e em paz. Ele próprio parecia tranquilo e sereno.
Ouvi muitos sussuros do seu filhinho e aquilo tudo não me fez bem. Por fim, voltamos para o Escritório, mas os reflexos de tudo sempre contaminam a gente.
Voltei para casa sozinho, não jantei. Sempre sozinho, acordei pela madrugada, olhei as fotos de minha filhinha e voltei a dormir.
A pessoa que fingia ser meu amigo foi quem armou tudo e notei a extensão da podridão humana, mais uma vez, sempre mais uma vez. Como a podridão humana não tem limites.
Hoje é outro dia, mas cada vez mais convicto e cada vez mais convicto de quem é mau não sabe medir a podridão. O meio onde vivo é podre e não vejo a hora de sair desse meio … talvez seja por isso que Carlinhos parecia sóbrio. Ele descansou.