 “Não é nenhum segredo que tive divergências com o primeiro-ministro. Acho que todos os dias deveríamos efetuar assassinatos seletivos em Gaza, a cada noite uns 30 ou 40.
Não apenas aqueles que representam uma ameaça imediata. Há gente ali que não merece viver. Nem sequer são pessoas, não os quero chamar de pessoas.”Não posso evitar que, toda vez que leio ou ouço afirmações desse tipo, algo se quebre dentro de mim.
O apologista da maldade, autor destas palavras, é nada mais, nada menos que o ministro da Segurança Nacional do Estado de Israel, uma infâmia a mais dentro de uma longa lista deste e de outros sujeitos do seu governo.Em sua breve existência, que nem sequer chega aos 80 anos, o Estado de Israel transitou do projeto colonial com o qual foi concebido para um abertamente genocida, ao mesmo tempo em que advoga para si nada mais, nada menos que a representação do povo judeu no mundo, apesar de não contar sequer com a maioria de sua população.
Sua evolução histórica torna lógico, portanto, que suas mais altas magistraturas estejam controladas por indivíduos assim.Este nível de maldade não é algo conjuntural, consequência do atual governo, mas algo estrutural.
O Estado de Israel traz em seu DNA a pulsão colonial e de limpeza étnica; é um Estado teocrático, excludente e que aspira à uniformidade étnica e religiosa que, no entanto, tem a audácia de se autodenominar democrático. Mas como pode ser considerado democrático — por mais que se celebrem eleições com uma certa pluralidade de partidos — um Estado que é em si mesmo uma colônia, que está em guerra permanente contra todo o seu entorno, que conta com um direito dual que diferencia os cidadãos de pleno direito daqueles que, segundo eles, “nem sequer são pessoas”, e que permite, entre muitas outras coisas, o assassinato e o encarceramento, inclusive de menores, sem a menor ficção de garantias democráticas e de respeito aos direitos humanos?Já são quase três anos da atual fase do genocídio e me entristece que Israel não seja sancionado internacionalmente, que as forças de oposição dentro do seu Estado sejam residuais, que representantes do povo judeu residentes fora de Israel, que sempre se posicionaram contra o sionismo e a criação do Estado de Israel, tampouco tenham força suficiente.
Me entristecem as inexistentes ações de isolamento por parte da grande maioria dos países do mundo e das organizações internacionais, assim como a limitada capacidade das ações realizadas pela sociedade civil para mudar a correlação de forças. Me dói que atletas e equipes que representam esse Estado possam ir a qualquer parte do mundo participar de eventos esportivos, e inclusive sediá-los nas terras ocupadas, enquanto praticam um genocídio.
Também é doloroso o colaboracionismo com o Estado de Israel por parte do governo da Cisjordânia palestina, apoiado pela chamada comunidade internacional e destituído de legitimidade democrática perante seu próprio povo — um governo similar ao que certamente conseguirão impor na Faixa de Gaza e que se dedicará de forma servil a perseguir a própria resistência palestina. |