Uma crônica de amor existencialista

Choveu sobre Santiago. Pouco, mas choveu. Para falar sobre ternura. Que noite maravilhosa. Estou sozinho, como sempre. Encerrado. Falei com a Nina, ela está bem, melhorando da gripe. Me conta sobre o mangá que lhe comprei. Dia 25 ela tem a segunda dose.

Tão importante quanto falar de política, é falar de amor. É ter uma família, um lar. É falar do nosso lado existencial, amoroso, afetivo, romântico. Viva Roland Barthes, de repente vi-me na década de 80 e lembrei-me do livro fragmentos de um discurso amoroso. 

Eu falo em política, escrevo, mas sinto-me triste ao cair das tardes. Prefiro sempre ficar encerrado, não vejo o dia se esvair e nem o chegar da noite. Sublimo tudo.

Todas as minhas relações amorosas, de onde poderia derivar-se para uma família, são essencialmente erradas. Sou um fracassado, nem a Terapia do amor da Igreja Universal funcionou comigo. Apenas as borboletas me amam, mas é aquele amor fugaz, sentam no meu ombro e dali um pouco voam. Vou tentar – agora – uma terapia com uma psicóloga, desisti dos pastores. Nem saravá funciona. Sou um caso perdido.

Entendo um pouco de sentimentos e afeições. Existem pessoas que passam anos ao nosso lado e nunca nos amaram. Existem outras, que nunca ficaram ao lado da gente, e que nos amam profundamente (é o caso de minha interlocutora digital).

Eu descobri, na vida, que tenho uma pessoa que pensa em mim de verdade, com o coração límpido, alma pura. Nunca teremos nada, mas ela me faz um bem, um bem, que só eu sei. Ela me faz feliz. Ela me transmite verdade. Não sei se que todas as verdades são relativas, mas ela me transmite algo que me soa como verdade. É tudo tão interessante e cativante.

Nós já passamos noites juntos. Mas tudo de mentirinha (como diz a Nina). Ela lá e eu aqui, só pela via digital.

Hoje, passavam das 14 horas e recebo uma mensagem. Se fosse uma declaração de amor, certamente não ficaria sensibilizado. Se ela falasse em sexo, tanto faz, é tudo igual.

Só que hoje ela foi tão especial, mas tão especial, ela me perguntou coisas tão simples, tão simples e ela é tão complexa, tão complexa:

– oi Julinho
– boa tarde
-o que almoçou?

Li os recadinhos dela, simples, singelos, mas profundamente humanos e transcendentes.

Respondi:

 – oi
– boa tarde (…)
 – arroz , massa, bife e suco de uva

Ao que ela pergunta:

– tu sabe cozinhar?

Respondo:

– sei cozinhar … adorava cozinhar quando tinha minha casa, amava as coisas que eu tinha, o fogão, a geladeira, minha mesa, os pratos, as panelas … só depois que tudo foi perdido eu fiquei tão machucado que nunca mais quis ter uma casa e nem uma cozinha. Cozinhar para a Nina era um ato de amor sublime. Eu me sentia tão feliz.

Ela responde:

– Que lástima. Isso é muito triste. 

( … )

É tudo tão estranho. Há milhares de anos eu e essa pessoa nos encontramos. Só nunca nos achamos. Pronto. É apenas uma breve crônica de amor. Não posso contar mais e nem escrever mais. Tudo o que eu escrevo dá problemas e acaba nas mesas das juízas.  Eles podem achar que estou escrevendo em línguas mortas, com mensagens tão subjetivas quanto criptografadas.

Mas não. Essa não. Sobre ela ninguém tem controle, exceto as instâncias morais e viva Gaston Bachelard. Meu coração está prestes a explodir, como o de Giordano Bruno na fogueira inquisitorial, enquanto isso escuto Bach, ao cravo, em ré menor.

As inquisições pós-modernas se dão pelo caminho de marte … até assassinatos, sendo deles, são abafados.