Um El Niño poderoso está chegando — e a história indica que ele deve causar estragos

Os maiores episódios do passado mudaram o rumo da história, dizem pesquisadores. O El Niño que está se formando já começa a ser comparado a esses momentos históricos.

Chico Harlan /The New York Times

Solo rachado em uma represa, enquanto o Zimbábue enfrenta uma seca provocada pelo El Niño, resultando em desnutrição entre crianças menores de cinco anos, gestantes, mulheres que amamentam e adolescentes, em Mudzi, Zimbábue, 2 de julho de 2024. REUTERS/Philimon Bulawayo/File Photo
Solo rachado em uma represa, enquanto o Zimbábue enfrenta uma seca provocada pelo El Niño, resultando em desnutrição entre crianças menores de cinco anos, gestantes, mulheres que amamentam e adolescentes, em Mudzi, Zimbábue, 2 de julho de 2024. REUTERS/Philimon Bulawayo/File Photo

Muito antes de ser entendido pela ciência, o fenômeno El Niño já deixava marcas profundas na humanidade.

El Niño é o nome dado a mudanças intensas nos ventos e nas temperaturas da água do Oceano Pacífico que podem transformar drasticamente os padrões de clima no planeta. Ao longo dos séculos, esses padrões naturais desencadearam secas e ondas de calor épicas e intensificaram epidemias.

Alguns pesquisadores afirmam enxergar as “digitais” do El Niño em crises políticas e econômicas no Egito antigo ou na queda da civilização Moche, no atual Peru, mais de mil anos atrás. Em 1877 e 1878, uma fome agravada pelo El Niño matou milhões de pessoas em regiões tropicais, consolidando desigualdades que, como escreveu um estudo, “mais tarde seriam caracterizadas como ‘primeiro mundo’ e ‘terceiro mundo’”.

Neste momento, o mundo entra em uma nova fase de El Niño. Pesquisadores alertam que ele pode ser um dos mais fortes já registrados e recorrem a essa história como lembrete de que forças naturais, quando atingem máxima intensidade, podem gerar volatilidade e sofrimento profundos.

Claro que o El Niño atual ainda está em estágio inicial de formação e pode acabar não confirmando as projeções mais agressivas. Mas, se os modelos estiverem certos, deve ser um fenômeno muito intenso — e seus efeitos se darão em um mundo mais resiliente do que no passado, mas também repleto de novas vulnerabilidades.

Em comparação com épocas anteriores, os países hoje monitoram eventos de El Niño com boias, satélites, medições oceânicas e sistemas de alerta precoce. A agricultura é muito mais sofisticada e muitos países expostos a choques de alimentos mantêm reservas estratégicas de grãos. Ninguém fala, hoje, em fome em larga escala.