Gaza: o amor em tempos de genocídio

ÓPERA MUNDI –AYA AL-HATTAB

eu vestido rosa balançava enquanto eu arrumava meu cabelo, deixando-o solto sobre os ombros.

Minha irmã gêmea, Amal, que me deu o vestido de presente, convidou uma amiga maquiadora profissional para me deixar pronta para o meu grande dia.

Era 9 de setembro de 2025 — a data em que Mohammed, meu noivo, e eu tínhamos planejado assinar nosso contrato de casamento, conhecido como katib kitab.

A irmã e o pai de Mohammed, junto com meu pai, minha mãe, minha irmã, meu tio e minha tia, se reuniram para a cerimônia no apartamento alugado pela minha família no bairro de Tal al-Hawa, na cidade de Gaza.

Quando o sheikh chegou para oficializar o casamento, Mohammed se juntou a nós – mas por videochamada.

Mohammed está no Egito com sua mãe e seu irmão. Seu pai, ainda em Gaza, o representou durante a assinatura do contrato de casamento.

Embora Mohammed não pudesse estar presente pessoalmente, a cerimônia mesmo assim foi linda e tiramos fotos em família depois.

Mohammed e eu tiramos fotos com nossos celulares de onde estávamos durante a cerimônia. Mais tarde, fizemos uma colagem com elas, criando uma única lembrança a partir de dois lugares distantes.

Como nos conhecemos

Quase exatamente três anos antes da assinatura do nosso contrato de casamento, em 14 de setembro de 2022, Mohammed e eu conversamos pela primeira vez durante a reunião final de um programa de escrita para jovens na cidade de Gaza.

Mohammed começou falando sobre nossa universidade e nossos professores; eu estava no terceiro ano e ele, no último.

Mohammed era tímido ao falar. Ele raramente olhava nos meus olhos, apenas olhava para a mesa.

Algumas semanas depois, após o término do curso, passei a segui-lo no Instagram e começamos a conversar, principalmente compartilhando músicas.

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Mohammed respondeu dizendo que a música era muito bonita, mas que gostaria que eles não tivessem se separado no final.

Quando voltamos ao campus e nossas provas finais começaram, ocasionalmente nos cruzávamos nos corredores. Nunca conversávamos, apenas trocávamos saudações breves como “bom dia” ao seguirmos caminhos diferentes.

Depois de terminarmos as provas finais, Mohammed e eu combinamos de nos encontrar em um café na cidade de Gaza.

Cheguei ao café em uma tarde fria e chuvosa de janeiro.

Mohammed já estava sentado lá, esperando por mim. Conversamos sobre pequenos detalhes da vida que nunca havíamos compartilhado um com o outro antes – como o fato de ambos gostarmos de dormir até tarde e ficar na cama durante o inverno, alguns dias sem sair de casa.

Também conversamos sobre linguagem corporal e o significado do contato visual. Não pude deixar de olhar nos olhos dele – dessa vez, ele não baixou o olhar para a mesa – e me perguntar no que nossa amizade poderia se transformar.

Quando me preparei para sair, Mohammed ainda estava sentado ali, olhando para mim enquanto eu me levantava e saía.

Felicidade, depois medo

Os meses se passaram e, em algum momento, Mohammed e eu começamos a usar casualmente expressões íntimas como “minha alma” e “meu amor” um com o outro ao trocarmos mensagens de texto.

Tive um momento de clareza e pedi que ele parasse – não queria que isso significasse uma coisa para mim e outra para ele. Precisava saber em que pé estávamos um com o outro.

Em 19 de março de 2023, confessei a Mohammed que o amava, sentindo arrepios e frio na barriga.

“Eu também te amo”, respondeu Mohammed.

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Às vezes, eu lia para ele trechos dos romances de Ibrahim Nasrallah enquanto estávamos sentados. Também conversávamos sobre o que gostávamos e o que não gostávamos – Mohammed adora videogames e eu adoro ler.

Aos poucos, nos tornamos parte da vida cotidiana um do outro. Mohammed visitou minha casa muitas vezes e conheceu meus pais, que rapidamente passaram a amá-lo.

Um dia, em setembro, Mohammed e eu fomos a um café à beira-mar chamado Q. O clima já começava a ficar mais outonal e a brisa noturna mais fresca do mar brincava com meu cabelo.

Conversamos sobre nossos planos para o futuro, viagens e os caminhos que esperávamos seguir – ele planejava procurar trabalho no Catar e eu pretendia fazer um mestrado em interpretação.

Nossa conversa foi repleta de risadas e eu desejei que o relógio parasse para que pudéssemos continuar sentindo essa leveza por mais um pouco.